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11.2.17




Nunca alimentei sonhos. Sempre vi alguns caminhos que poderia escolher seguir e fui andando mais por intuição do que seguindo a razão. Ainda assim aqui estou nem perto de insatisfeita. Com o tempo notei que fiquei mais ambiciosa (coisa que não era mesmo nada sendo a ausência da ambição até um defeito) e embora tenha ganho com isso também me tem saído mais das tripas. O make it happen por vezes impõe-se quando apenas queremos esperar na fila. Enfim chegamos aos sonhos. Há dias estava com o R. e comecei a pensar se os teria. E tenho. Dois ou três. O que está acima na lista é tão simples e difícil que serve bem para farol dos outros.

Quero uma casa no campo. No meu campo onde tenho raízes. Para os lados de Almeida. Uma casa de fim-de-semana mas também de semana, quando estou em época de relatórios ou de escrita de artigos. Uma casa para receber amigos que se irão deslumbrar com a vista  quase virgem da paisagem (a linha de comboio lá ao fundo é hoje mais um património abandonado que se funde com o natural). Uma casa onde vou ter pão, vinho, queijo e fumados sobre a mesa e será o suficiente para longas conversas. Uma casa onde vou ler na varanda ao por do sol. Uma casa com quintal onde o R. vai criar tomates, papoilas e uvas. Uma casa para ser feliz.

O preço suporta-se, as obras também, o que é mais difícil é o tempo. Comprar tempo é o sonho real de toda a minha geração. Faltam-nos horas. Alguns escolhem não ter filhos, outros escolhem como passatempo viajar (que na verdadeira acepção da palavra deveriam querer dizer "sair do tempo" até porque se cria um fluxo novo de dia a dia por uma semana). Já não se come em casa. Não há tempo para ir às compras e preparar refeições. Enfim. A mim o que falta é tempo para me por na A1, A23 e A25, com portagens para pagar, semanalmente, sem que isso me faça mossa na carteira.

Estamos a tratar disso.
Mas lá está. Por agora falamos de um sonho.

14.2.15


Quando te conheci ninguém me fazia falta. Estava completa sozinha.
Desde a adolescência há sempre alguém, claro. Há sempre quem nos ocupe o pensamento. Uma vestigial marca do passado, uma presença presente que apenas vale para nos fazer rejeitar ou ser rejeitados, ou uma lembrança de um hipotético futuro que nunca será. São os espectros que vamos coleccionando enquanto passagens vivas.
Dizia que me sentia completa. Vivia sem pensamentos esfuziantes mas habitava espaços e usufruía de pessoas. A ansiedade estava ausente, os caminhos planos, os passos seguros. Havia liberdade em ser só uma.
Depois vieste tu. Conheci-te por fotografia. Onde é que já se viu nos dias de hoje? Nesse dia olhei-te e senti-me no topo de uma montanha russa prestes a descer. As entranhas deram sinal. Na tua presença o meu corpo respondia de forma ainda mais visceral. Foi-se a serenidade matinal. Suores, pressas, coração descompassado, lábios secos, tiques nervosos de dedos que não largam os fios do cabelo. À tua frente, uma falsa serenidade. Por dentro, a ebulição.
Lá se foi o caminho em linha recta, o usufruto dos amigos, os lugares, as músicas, os filmes, os livros, as horas egoístas que só a mim diziam respeito. A caixa de mudanças não mexia, todos os dias passei a meter a quinta para tomar uma única direcção, tu.
Aos poucos a paixão complementa-se e ajusta-se. Há lugar para concessões, partilhas e novos hábitos. São dois que se emparelham. Há que manter uma distância constante. Respeitar a individualidade num caminho comum. Os passos são agora mais seguros. A paixão e o amor persistem. A amizade e a admiração crescem. Cinco minutos sem ti e já tenho saudades. Falta-me uma parte.
Quanto te conheci sabia estar completa. Hoje sei que assim foi porque só dois seres completos, serenos e conscientes de si se podem dar tão totalmente um ao outro.


26.11.13



Ele, de facto, gosta de mim.
Gosta de mim mais do que o M. que vivendo a 300km nunca tirou a carta para estar comigo. O mesmo M. que quando precisei mesmo, quando a minha avó morreu, não tinha como me confortar com os seus abraços. E eu desisti. Ele foi assistir a um jogo do Benfica a 300 km de casa na semana seguinte.
Gosta mais de mim do que o J. que se inscreveu num estágio em Madrid quando estávamos no pináculo da paixão e mesmo assim queria continuar. E eu desisti. Ele foi  para Madrid, ficou um ano e hoje trabalha noutro ramo.
Gosta mais de mim do que o M. que queria ficar comigo para sempre mas não largou o emprego estúpido num call center para seguir o seu talento para desenhar formas. Eu desisti. Ele evoluiu e já não trabalha num part-time num call center, agora tem um full time.
Gosta mais de mim do que o A. que achava que amor era passear-me à frente dos amigos. E eu desisti. Hoje ainda não sabe o que é o amor, mesmo tendo, como músico, as mulheres que quiser à perna.
Gosta mais de mim do que o S. que achava que o lugar da mulher é atrás de um fogão. E eu desisti. Hoje é um machão com uma mulher cornuda na cozinha.
Ele gosta de mim. Em vez de me enganar com desculpas diz que não tem tempo: "Ainda por cima estou encarregado de fazer um presépio até dia 10.". Que só vai conseguir estar comigo em 2014. Que se não consegue dar tudo prefere não dar nada.  

3.11.13

Fui a Vila Chã e chorei




Há uma terra, para os lados do Barreiro, que se chama Vila Chã. Depois de morta, a Rosa, minha avó, foi para lá.
Vila Chã nunca tinha existido para  mim. Hoje é um sítio que visito de tempos a tempos. Na sexta-feira, por saber que a avó Rosa gostaria, fui lá. Sentei-me na borda da campa e conversei com a avó Rosa como sempre o fiz, voz alta, olhos expressivos e sorriso na cara. Contei-lhe dos amores, da minha vida nova em Beja, da minha mana caçula e de como está a viver bem a vida, dos meus pais no seu amor de décadas e da minha prima, caloira este ano. Falei-lhe do que gostava que ela tivesse presenciado (a defesa da minha tese, que lhe dediquei; a minha casa, onde há tanto dela) e disse do que tinha saudades (os abraços com amor, as conversas ao telefone, os beijinhos intermináveis, a canja, a cerelac, o arroz doce e os biscoitos).
Levantei-me e ao fundo da campa, chorei! Há amor, há saudade!
 
A minha avó nunca morou em Vila Chã. Foi um dos acasos da vida (ou da morte) que ditaram que era ali que ela iria ficar. A minha avó mora debaixo das videira, onde em criança se deitava a comer uvas directamente da árvore. Mora em todas as ruas de Campo de Ourique onde viveu a felicidade que envolve os recém-casados. Mora nas lezírias do Ribatejo, onde os frutos são silvestres, os touros seguem com o olhar os que passam nos caminhos e a sopa é da Pedra. Mora no braço da minha mana caçula onde está tatuada a frase que tanto dizia e mais nos marcou, não uma frase poética mas sim uma frase feita - a vida é maravilhosa. Mora em nós, nos nossos gestos, palavras e hábitos.
 
Fui chorar a Vila Chã mas, diariamente, sorrio onde estiver. É um sorriso de avó Rosa.

26.9.13


 
 
Pela morte de Ramos Rosa (poeta que nunca tinha lido) ocorre-me que a Morte é o momento de maior atenção dado a um poeta. Constatação triste mas para a qual contribuo. Não são raras as vezes em que é depois de anunciado o desaparecimento que me levo a pegar em poesia.
A poesia que leio é avulsa. Um poema hoje e outro daqui a dias, normalmente pesquisada na internet, a  não ser nos autores que me são muito queridos. Se fosse por mim, é verdade, nenhum poeta tinha pão para colocar na boca.
 
Mas é isso que distingue a poesia. Nem sempre0 quem tem alma de poeta, quem gostaria de  apreciar os poemas, tem a eles acesso. Há muita gente com quem me cruzo, por caminhos e aldeias, que me esmaga com cinco palavras certeiras. Outros, pela TV ou jornais, embrulham-me o cérebro até quase o apagarem.
 
E se leio poemas é numa luta constante contra a ideia inculcada por anos de português mal ensinado de que o que interessa é a métrica, a rima e a as figuras de estilo...
 
 
A Poesia Vai Acabar

 

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

7.6.13

O Rodrigo não é uma moda




Fiquei a saber do Rodrigo pela Ursa Polar. Acho que neste momento já todos conheciamos a sua história e da mãe, a Vanessa. Também sabemos que a natureza das coisas agarrou com toda a força no pequeno Rodrigo e não nos deixou fazer mais.
Mas o Rodrigo não é apenas um hype, o tema da semana ou do mês. O Rodrigo deve continuar dentro de nós como o rosto de todas as crianças com o mesmo problema. Já todos sabemos o que podemos fazer. E vamos não esquecer!
 
P.s. É (também) por isto que ando na blogosfera. Com orgulho.

30.5.13




Quando era adolescente, nos 13/14 anos,  as minhas colegas, pioneiras na arte de namorar, achavam que era a mostrar ciúme que se fazia notar o "amor" pelos namorados. Eles achavam aquilo muito engraçado porque lhes permitia ir dando corda a mais  uma ou outra rapariga só com a desculpa de provocar a namorada...  obviamente não corria bem.
Hoje em dia, tal como em tantas coisas, a atitude adolescente subiu nas classes etárias e são já jovens de 20 e poucos que acham legítimo o ciúme exagerado - segundo notícia amplamente divulgada - com escalada para a violência. Há quem pense que uma estalada bem dada pode ser importante para a relação...
Este é um assunto que ando a remoer à dias e que não consigo mesmo entender. Com toda a informação que estes miúdos consomem é de esperar que estejam mais do que sensibilizados para a violência conjugal. De facto estão, eles apenas 1. acham um exagero isso de chamar violência a um puxar de cabelos ou uma estaladinha de nada, 2. viram em casa (a justificação de antigamente), nos amigos ou na televisão e acham que assim há justificação e 3. há um gosto pelo drama, um "ele viu-me a falar com o fulano tal e deu-me uma estalada, deve gostar mesmo de mim"...
Há uma patologia muito grave nisto tudo, porque mais do que no caso das gerações anteriores em que o homem, ser dominador da relação à partida, durante século (erradamente) descarregava na mulher e a sociedade assobiava para o lado, este é um problema de sociedade, de fundação. Estamos a falar de jovens - o amanhã - que se apresentam completamente dependentes do sentimento de posse, assim como possuem um i-pod também são donos de um namorado/a. Não sou psicóloga ou socióloga mas  cheira-me que no meio disto tudo a estalada final é para todos nós.

28.2.13



Acho que todos temos locais ou períodos do dia em que nos sentimos mais inspirados, com as ideias a navegar por mil patamares, quais quadros surrealistas, quase momentos oníricos. 
Eu tenho dois grandes catalisadores no que toca a criatividade, inspiração e deambulação mental, a música e a observação de pessoas sem que elas o percebam e no meu dia-a-dia esses momentos coincidem com o tempo que passo dentro do carro, no trânsito (sim eu sou uma pessoa que gosta de horas de ponta).
As ideias chegam a um tal fluxo (para a tese, para o blog, um comentário sarcástico que quero fixar, uma premissa para um texto, etc) que raramente os consigo lembrar.Quando paro o carro (e como não consigo escrever a conduzir) eles desaparecem como um sonho ao acordar. De vez em quando lá me lembro de um ou outro mas nunca fazem tanto sentido como a ideia inicial...
Isso, maus caros, é uma frustração. Ideias que voam.

26.2.13

Coisas que achava cool antes dos 13 #4



Buracos! Todos os tipos de buracos me intrigavam. Desde grutas a poços ou buraquinhos nas paredes de granito da terra da minha mãe onde as pessoas guardavam as coisas.
O meu Jardim favorito em Lisboa é o dos Paços do Lumiar que está cheio de esconderijos misteriosos. 

Hoje a minha vida passa literalmente por descobrir e me enfiar em buracos. A criança em mim é um ser feliz.

15.12.12



Daqui a 12 horas o meu amigo mais antigo casa-se.

De tempos a tempos, mais ou menos um por ano, eles vão seguindo o curso da vida, nos seus casos o esperado.

Eu assisto, sempre sem par para além dos amigos de sempre, sentada, ao desfilar de palavras bonitas e de compromisso, ao "sim", aos beijos depois do bater dos talheres nos pratos, às montagens fotográficas com os momentos importantes da relação, ao cortar do bolo, enrolar dos braço e bebericar dos copos de champanhe e aos foguetes no final.

Sou uma romântica incurável (e deplorável) e adoro casamentos. Acredito mesmo que é para sempre e comovo-me com o passo, com o assumir do compromisso, tão raro. 

Mas não espero pelo dia em que serei eu. Costumo dizer que sou pouco exigente no momento de me apaixonar e muito depois. É um defeito. Mas já encontrei a pessoa certa umas quantas vezes. Só que o momento muda, passa e fica para trás.

Aos meus amigos, casados, a casar e futuros casados só desejo o melhor e que o momento nunca passe.

17.10.12

Amanda Todd




Pensei muito em colocar este vídeo no blog. Mas senti quase um dever mostrar como pode o bullying ser cruel e decisivo na fase de formação de um indivíduo. 
Amanda Todd filmou este vídeo onde apenas com papeis escritos por si  explica como a sua vida se tornou um inferno depois de ter começado a sofrer de ciberbullying e de como isso a perseguiu, tornou frágil, sem confiança e dependente de aceitação. O final é um pedido de ajuda, de suporte para continuar a sua jornada.
Passadas cinco semanas da gravação do vídeo Amanda suicidou-se.

Back in the day, quando ainda não se conhecia o termo bullying, ou seja, quando era "normal" que uns miúdos fossem mais massacrados que outros na escola, passei por uma experiência que hoje se poderia incluir nesta categoria. Era sobretudo agressão verbal e controlo mental, mas ainda levei uns pontapés ao sair do autocarro ou depois de passar os portões da escola. Não havia nenhuma razão para aquilo, nada que tivesse dado origem aquelas acções. Eu tinha 10/11 anos. Sempre tive uma ligação muito aberta com os meus pais e eles sempre confiaram em mim. Antes de ir para a escola onde as agressões aconteceram era muito dona do meu nariz, muito comunicativa e alegre. Não queria que os meus pais vissem que eu precisava deles e que não estava bem então ia para casa e fingia estar muito mais feliz do que o normal. Lembro-me de treinar sorrisos à porta do prédio. Quando saía da escola escondia-me para não me verem ou então metia conversa com algum adulto que conhecia para ir caminhando acompanhada. Comecei a chorar todas as noites na cama e a não dormir. Passados uns meses fui dando pequenas pistas de que não estava bem em ir sozinha para casa (mas sem contar a verdade) e os meus pais passaram a ir-me buscar à escola a maior parte das vezes. Isto durou um ano, mais ou menos, depois quase toda a minha turma mudou de escola e eu fiquei novamente livre e contente. Há uma facilidade de superação neste idade que ainda hoje me deixa incrédula. Nunca mais tive problemas mas o que passei moldou-me positivamente, tentei dar-me com as pessoas certas, que me faziam bem e afastar as outras, filosofia que mantenho até hoje.

Conto isto porque eu e os meus pais sempre fomos muito próximos, eles pensavam que me conheciam bem e que eu falaria de tudo com eles. Sobretudo se o meu bem estar estivesse ameaçado. Não foi isso que aconteceu. Eu fechei-me e consegui disfarçar. Ainda hoje, passados uns 16 anos, eles não fazem ideia do que realmente passei naqueles meses. Embora já tenha toda aquela época bem rematada na minha história de vida ainda me é muito penoso lembrar aqueles sentimentos de medo e desespero, o que veio a acontecer mal li sobre a história de Amanda.
Tenham sempre muita atenção ao comportamento dos vossos filhos, se ele se alterar procurem as razões, tanto as vítimas como os agressores são normalmente crianças/jovens banais.

12.10.12




Fui para estas paisagens trabalhar. Nunca lá tinha estado. Ainda estava no carro e já estava apaixonada. Mas eu ainda não sabia como iria esse trabalho mudar a minha vida. Apaixonei-me pela natureza, tão inóspita quando calorosa. Basta estar lá e sentir. Os Verões quentes e Invernos gelados foram um processo de habituação forçado mas valioso. Agora, que já não vivo lá, raramente tenho muito calor ou muito frio. Terras Quentes é o que lhes chamam. Apaixonei-me pelas paisagens mas também pelas pessoas. Velhos e novos. Velhos que são desconfiados, fuinhas e forretas "dinheiro é na mão fechada e virada para cima para não cair", mas também amigos, preocupados e familiares. Nunca nesta terra, mesmo sem um cêntimo, passaria alguma vez fome. Fiz amigos para a vida, de quem morro de saudades. Penso neles quase diariamente. Provei das melhores coisas de sempre(e a comida de trás-os-Montes merece por si só um post exclusivo). E apaixonei-me. Zanguei-me com a obra onde estava, que destruía toda a linda paisagem, que eu acho, devia ficar intocada e parti. 

Hoje este vídeo fez-me chorar. Em breve tenho que  voltar a colocar os meus pés (com meias de lã muito quentinhas) no inverno transmontano.

17.9.12



Por aqui as segundas feiras não são malditas (para dias malfadados há aqui a wednesday breakdown), principalmente porque dão sentido aos fins de semana e também porque gosto muito daquilo que faço. Mas há o pequeno senão de serem dias de muito, muito trabalho e hoje, em particular, é daqueles dias em que tenho uma hora para aprender o que normalmente demoraria uns dois dias.

Fora o trabalho (vou ter que desenhar rsrsrsrsr) tenho a minha mana caçula (e caloira) junto de mim! Happiness! Vou ver de camarote como ela vai viver o ano de caloira em Coimbra o que me está a deixar cheia de expectativas (eu que fiz a faculdade numa faculdade de letras de Lisboa anti-tradição académica :( ).

O fim de semana revelou-se muito bom. 

Uma manifestação que me encheu de orgulho. É muito bom, quando mesmo quando por razões lamentáveis, são os portugueses, cidadãos, homens, mulheres, crianças, velhos e novos, que me dão o incentivo para manter a pequena réstia de esperança no futuro.

E o Motelx, um festival pequeno (e que espero que assim continue), com uma programação cuidada e dedicada. Não só nos brinda com grandes e recentes filmes do género horror/suspence, mas também com fitas obscuras, underground, clássicos de outros tempos ou intemporais, documentários sobre o género e as figuras que o construíram (com o cuidado de formar os aficionados) e actividades paralelas que nos abrem  o apetite. Vi dois filmes, cada um a 3 euros (preços irreais quando comparados com os cinemas mais mainstream), e fiquei satisfeita com ambos (pormenores em breve n´A Viela do Ócio).

O resto foi conversa. Literalmente. Conversa com os amigos. Quem melhor para falar? E nestes tempo de indefinição muitas vezes não há nada mais terapêutico do que desabafar com nos amigos.

8.9.12

Notas de um passeio à Baixa de Lisboa




Gosto de homens estátua. Não me tentaram assaltar. Pontinho para o Costa. O MUDE fecha às 6 da tarde. Uma hora estúpida em dias em que o Sol de põe às 8 e quando ainda existem tantos passeantes na zona depois dessa hora. A Rua Augusta está toda bonita. Experimentem ir lá amanhã com tudo fechado. Ou passar na rua do Ouro/Prata onde mais de metade das lojas estão fechadas, o que dá um ar de cidade do interior despovoada. Pergunta que me angustiou: onde é que esta gente vai ao supermercado. Resposta da parte pragmática do meu cérebro: aqui não mora gente.  O Terreiro do Paço está maio bonito assim com as laterais fechadas. Faltam as árvores (ouvi dizer que estão a caminho). Quis comer qualquer coisa mas os preços estão proibitivos e o meu início do mês é a 20. O Cais das Colunas é um sítio muito giro para um fim de tarde, a olhar o horizonte (tentando nublar a vista ali para os lados da Lisnave) e ler um livro. Muitos portugueses lá sentados mas também turistas. Afinal as colunas tem algo escrito. Ah, é um discurso do Salazar. E outro do Carmona. Que pitoresco. Começa a tocar uma banda angolana. Nada mais adequado ao local de onde partiam navios para as colónias e também serve como enquadramento acústico ao Dr. (este era mesmo doutor que era advogado) Salazar. Aparecem umas noivas que vão tirar fotos com as zonas industriais do Barreiro, do Montijo (Siderurgia Nacional, outra coisa do Dr. Salazar) e de Almada a servirem de pano de fundo. Deve ficar bonito em sépia, ocorre-me. Está a ficar frio. Paro para tirar umas fotografias que registem a passeata. Eis quando, vindo das memórias mais profundas do meu ser, daquela adolescência que desejamos para sempre perdida, ouço a música do Titanic (Miss Dion pois claro) a ser tocada em flautas de Pan. Não consegui evitar uma lágrima enquanto olhava para o Cristo Rei de braços abertos. Convenci-me naquele momento que para o ano vou antes ao Avante.

6.9.12

To do list




Esta semana é de mudança, literalmente. Vou embora do Alentejo (e ficar sem as pérolas da minhas senhoria :( ) e voltar para casa, Coimbra (que isto quem tem o coração em todo o lado acaba por ser um grande proprietário de sítios).

A mudança é motivada por trabalho, o que é bom, que eu gosto de mudar. E acontece logo nesta fase de fim início de estação, de luas azuis, regresso às aulas, fim de silly season (really?), saída de amigos para viver (e sobretudo trabalhar) fora de Portugal, nascimento de bebés de amigas, outros mesmo a nascer e ida da mana mais nova para a universidade. Onde , onde? Precisamente, Coimbra! :)

Por isso a lista em cima está mais que actual. Vamos por pontos:

1. Dormir: no need. Já durmo imenso. Por isso este ponto até vai funcionar ao contrário. Dormir menos SFF.
2. Música: sempre, mais e mais. E de preferência coisas novas, daquelas que nos fazem sentir que estamos na posse de um pequeno segredo, antes de o libertarmos para o mundo. E sem abandonar as coisas de que mais gosto. E já agora ouvir mais Clássica, que por preguiça cerebral é muitas vezes colocada em último plano.
3. Chá: é um dado adquirido! Se já no Verão bebo chá que se farta no Inverno nem dá para falar. O cantinho dos chás na prateleira está, aliás, tão grande que em breve deixa de ser um cantinho. Por isso aqui o desafio é dar um ar apresentável ao canto dos chás.
4. Livros: sem dúvida. Tenho montes, pilhas, quilos de livros para ler e este ano ando meio fraquinha. Como é costume que o ritmo que adopto a ler seja um reflexo dos meus ritmos de trabalho é capaz de a coisa se compor já que aqui no Alentejo a coisa não se proporciona muito, com 12 horas de trabalho diárias e uma senhoria tagarela em casa.
5. Pôr-do-Sol: Esta também não parece difícil, até porque agora o final do dia é mais cedinho. Das coisas que mais prazer me dão é ver o pôr-do-Soll a acompanhar o carro enquanto conduzo para casa no final do dia de trabalho. Priceless.
6. Criar. Definitivamente tenho que criar (que é como quem diz acabar) a tese. Depois disso já tenho todo o tempo para criar as coisas mais supérfluas e prazenteiras que tenho adiado.
7. Passeios grandes: ou caminhadas. Que eu quero muito começar a fazer. Daqueles mesmo tipo trekking, ou vá lá, uns passeios decentes, com caminhada, aos fins de semana. O parque verde em Coimbra  (ou o Choupal) também não me parecem mal. 
8. Rir: eu rio muito. Pelo menos é isso que acho. Sei que não sou uma pessoa sisuda. Mas também sei que podia rir muito mais. O que implica aborrecer-me menos. E este tem sido um projecto a longo prazo, desde os meus 20 que me tendo a aborrecer cada vez menos e tem resultado. São, é claro, baby steps. O segredo está em olhar para os outros e deslumbrar-nos por pequenas coisas como um nosso colega muito chato colocar sempre 1 cubo e meio de açúcar no café.
9. Abraços: dou aos montes. E não dou mais, muitas vezes, porque não sei como é que as pessoas vão reagir. Mas, depois, tenho o pólo oposto, se não gosto da pessoa, nem um aperto de mão vai aparecer.
10. Sonhar: também não é preciso mais. Se mantiver neste nível já está estupendo. Sonho que me farto a dormir e ainda mais acordada. Sou das pessoas com uma mente mais fértil que conheço. Tenho uma pena de não ser dotada para a música ou pintura... acho que precisava que esta criatividade toda me saí-se do corpo pelos dedos a fora.
11. Divertimento: é preciso sim senhor. Saber quando sair, e não ficar em casa a ver TV, acabando por não fazer nada de jeito. Fazer pequenas coisas divertidas que a vida não está para horas perdidas.
12. Amor: quem não precisa sempre? Eu sou muito amada, amo muita gente, mas este coração é muito grande e se couber mais alguém será bem vindo. E viva o amor no Outono. É tão bonito.

29.8.12

Diz que ontem foi tocada a primeira música em Marte, por intermédio do robô Curiosity. Essa música foi uma composição original de Will.I.Am, músico dos Black Eye Peas...

SEREI A ÚNICA PESSOA A ACHAR ISTO COMPLETAMENTE IDIOTA???

Então não existem na história da música temas mais apropriados a serem tocados, pela primeira vez, em MARTE?

Logo de repente lembro-me de Life on Mars de David Bowie, ou mesmo o seu Space Odity. Mas sobretudo, e até enveredávamos pelos clássicos, Strauss com Assim Falou Zaratrusta, abertura do filme 2001, Odisseia no Espaço de Kubrik.

Porquê desperdiçar uma oportunidade tão bonita com bullshit music.
 

28.8.12

Do Estado ser estadinho (ou de como é que se pode ser Estado sem se saber o que é Serviço Público)




É verdade que sou tendenciosa. Não tenho TV em casa, o pouco que vejo é na casa dos pais ou nos cafés. Mas, mesmo sabendo o papel que tem a RTP2, um verdadeiro desafio à política mercantil de hoje, em que tudo o que não dá lucro acaba (e nisto insere-se a cultura portuguesa e muitas vezes a ciência), eu não acho que o seu encerramento seja um desastre total. Há já muito que a sua programação estava descuidada (hello 5 noites 5 filmes) e eram poucos os programas a que não se tivesse acesso através dos canais por cabo, nos dias de hoje muito disseminado.

Por isso o que me preocupa é a venda (ou coisa alforrecamente semelhante) da RTP1. Se dois canais do estado (de SERVIÇO PÚBLICO) tem um custo insuportável (que as pessoas e instituições que consomem electricidade pagam indiscriminadamente, como eu, que nem TV tenho) que se acabe com um, mas que aquele que fica cumpra o papel para que foi criado e que no meu entender é apresentar programas que mesmo que não dêem lucro, ou sejam outsiders, são de exibição fundamental para os cidadãos (mais uma vez, aqueles que pagam) e nisto não se inserem as séries da Plural que ficam muito bem na TVI, mas já se inserem os filmes portugueses, que o financiamento e posterior exibição na TV pública ajudariam a suportar o CINEMA em Portugal. Não é o Preço Certo (cuja função de ajudar a contar em euros há já muito terminou) mas os Jogos das Selecções Portuguesas (todas!). São programas de música verdadeiros (onde se inclua todos os géneros) e não um Top + miserável à boleia das tabelas de vendas. São reportagens de fundo, documentários de autor, curtas metragens, peças de teatro, o Regiões, a Sociedade Civil, programas decentes de entrevista (que não sirvam o Estado mas o cidadão), transversais, talk shows sem censura ou interesses comerciais, programação infantil e juvenil estruturada e pedagógica, coisas sem audiência como o Direito de Antena, a Fé dos Homens, O Tempo e a Gente, Biosfera, etc.

Não é certamente um canal cujo dono é angolano ou uma empresa privada que vai entender o que é Serviço Público. Sobretudo se nem o próprio Estado o entende.

Para terminar.. há uma rádio pública e nacional neste País, caso único, em que existem programas de autor, com numa linha definida, programação diária com locutores formados em bom português e dicção correcta, espaço informativo que privilegia a difusão cultural e que não trata os ouvintes como se fossem atrasados mentais. Essa rádio é a Antena 3. E por programas como o M de Mónica Mendes, o Coyote de Pedro Costa  , ODAJOANA de Joana Dias, A Hora do sexo com Raquel Bulha e Quintino Aires, Canções com História de José Paulo Alcobia e Pedro Costa, Música sem Filme de Paulo Castelo, Planeta 3 de Raquel Bulha, Portugália de Henrique Amaro   e o Indiegente de Nuno Calado eu sou muito mais música e muito mais feliz porque muitas vezes a minha alma foi salva por um programa de rádio. Acabar com esta rádio é um crime cultural. Mais um.

22.8.12




Por vezes acaba e ela vira-se para o lado. Uma coisa ao jeito d´O Descanso do Guerreiro. Soube bem. Acabou. Dormir. Mas, raramente, ela quer mais. Quer a cabeça encostada ao ombro, a perna por baixo da dele, a mão a mexer distraidamente no umbigo. É quando ele acaba e se vira para o lado. Ele: sensação de plenitude. Dormir. Ela: sensação de abandono. Noite em claro. Eis quando a noite branca dela é interrompida por um abraço adormecido. Plenitude. Outra vez. Dormir.

14.7.12



A propósito do post anterior.

Poesia e beleza porque não há algo mais triste do que viver num local sem o habitar. Não saber olhar o que nos rodeia, sejam pessoas, situações ou objectos sem se entender o seu papel. Passar pela vida com palas nos olhos não é melhor que não existir. E a poesia está nos pequenos detalhes. Naquelas folhas de jornal junto ao caixote do lixo, nos degraus gastos das escadas de entrada de um prédio devoluto, na flor que teima em nascer junto à estrada,  nas pessoas que se cruzam connosco no comboio, cada um com um destino diferente e como isso, se estivermos atentos, se torna evidente nos seus rostos.

Romance (ou paixão) é daquelas coisas inexplicáveis da evolução humana. Há uma função muito concreta para esse sentimento efusivo de que o mundo é pequeno para toda a nossa plenitude, aquele sentimento que nos faz ter os lábios secos só de pensar no outro, a barriga às voltas e a cabeça bem acima dos nossos ombros. É uma garantia de fidelidade. Quando nos sentimos assim tão preenchidos por outro não pensamos em mais ninguém. Assim sabemos sempre quem são os pais dos filhos (nature says it). Mas esta embriaguez sem álcool, embora muito catastrófica (muitas vezes) no fim de contas, é das coisas que mais nos move de tal modo que embora saibamos bem o que custa quando as coisas dão para o torto continuamos a insistir vezes e vezes seguidas. Ainda há quem insista em teorias tipo "design inteligente" para os seres humanos.

E o amor? O amor é o que nos une. É o fio de Ariadne que nos leva sempre de volta a casa. Que como se diz, e bem (por isso vale a pena repetir) é onde o nosso coração mora. E não é na caixa torácica.

12.7.12

Das equivalências

Depois de uma breve reflexão cheguei à conclusão de que andava a mentir no currículo apresentando-me (apenas) com a profissão que exerço. Se não vejamos. 

Quando criança tratei de um peixinho dourado, o que claramente faz de de mim uma pessoa com habilitações em biologia. Mais tarde mas ainda em criança, entre amigos, era frequente encenarmos "O Juíz Decide", com posições rotativas, o que faz com que tenha formação como advogada, batedora de palmas profissional, juíza, apresentadora de televisão e mais surpreendente, delinquente.

Em adolescente passava horas no mIRC o que claramente me preparou para decifrar mensagens e códigos (aka trabalhar para o SIS).

Na faculdade como é frequente para além de estudar andei algum tempo a provar néctares espirituosos, competência que cabe a qualquer enólogo. Confirma-se. Pelo caminho já fiz vindimas o que me transforma automaticamente numa vitivinicultora.

Tirei umas fotos ao gato. Fotografa. Diz que tenho  mão para os bolos. Pasteleira. Dou boa ouvinte, dou vários conselhos e tenho questões pessoais a resolver. Psicóloga. Vou às compras. Personal shoper. Fiz educação física. Personal trainer. 

O meu trabalho é em obras públicas (embora nada tenha haver com construção) logo tenho conhecimentos e competência para engenheira civil, geóloga, topografa, técnica de segurança, técnica de ambiente, bióloga...

O meu mestrado é sobre doenças orais em esqueletos medievais. Ora já se está mesmo a ver. Dentista. E como mexo muito com estatística vá lá, matemática.

Com tanta formação  e equivalências só mesmo sendo burra (sem menosprezo à raça asinina) é que trabalho a recibos verdes.