Em 2011 o vencedor do prémio Leya - João Ricardo Pedro - era um engenheiro no desemprego quando se propôs a escrever a obra "O teu rosto será o último" que lhe rendeu o galardão. Recentemente ouvi a notícia de Daniel Rodrigues, vendedor na categoria de foto quotidiana do World Press Photo, o mais prestigiado prémio fotográfico do mundo. Está desempregado, juntou-se a uma missão voluntária para conseguir as suas fotos e teve que vender a máquina para sobreviver. Imaginem que um escritor tem que vender as suas canetas ou um pintor os seus pincéis...
Na semana passada fui assistir a defesas de teses de mestrado de amigos e colegas. Foram boas teses de 17, 18 e 19 valores. O que é que estas pessoas vão fazer a partir daqui? Vendo o caso de colegas que já defenderam há uns anos existem várias soluções de futuro:
1) voltar para casa dos pais, que já pagaram a licenciatura e o mestrado (sim porque os mestrados funcionam em horários que impedem, em muitos casos, de arranjar qualquer outro trabalho) e continuar a depender deles enquanto utopicamente enviam currículos dos quais nem resposta recebem numa rotina apática, defesa para que não se descaia nem para o lado da esperança que dá para o torto nem para o lado depressivo que resulta ainda pior
2) tentar anos e anos seguidos ter uma bolsa para avançar com a tese de doutoramento. Bolsas essas que para além de escassearem são atribuídas segundo critérios muito estranhos que ninguém entende, nem aqueles que milagrosamente as recebem. Estes estão uns quantos anos a fazer o doutoramento, sem direito a nada como ferias, subsídios, faltas ou descontos para a reforma, defendem a tese e ficam geralmente com as restantes hipóteses que aqui menciono.
3) podem sempre emigrar, e aqui reside a maior taxa de sucesso, levando consigo os conhecimentos que o Estado (e todos os contribuintes) ajudou a adquirir. Os pais tem que escolher lidar com um filho perto sem futuro ou lá longe mas independente e bem sucedido, a produzir investigação reconhecida e que podem rever sempre que, com pompa, seja convidado a vir falar numa universidade ou conferência portuguesa.
4)por último podem chatear-se e ir trabalhar para o supermercado ou outro emprego que tal, esquecendo tudo o que estudaram ou sabem, porque se não provavelmente dão em loucos (atenção nada contra estes empregos que nem ponho de parte num futuro meu mas se tivesse a certeza de que era ali que ia parar tinha-me poupado (e aos meus pais) muito dinheiro, as noites em branco e avida pessoal hipotecada).
Porque depois há isso. Nesta história toda só tem filhos quem se descuida ou então tem um parceiro com um óptimo emprego porque não há como ter projectos num mundo tão precário em que teses de investigação sobre a cura do cancro são escritas num quarto duplo de 100 euros a comer massa com atum.
O nosso trabalho de investigação é extraordinário, ganha prémios e bolsas internacionais, mas o Estado desliga-se dele desde a licenciatura destes investigadores e profissionais, não os sabe orientar, manter e fazer crescer no seu país. São trabalhos sobretudo feitos à custa de muito suor, quando se pode, conciliados com trabalhos reais de 500 euros ou então usando o dinheiro dos pais, de muito empenho, gosto e carolice.
Voltando ao início deste texto. Nós não gostamos de ficar parados, somos engenhosos e dedicados e isso pode resultar num livro escrito no desemprego ou de fotos tiradas numa missão voluntária por uma máquina que entretanto teve que se vender. A vontade de fazer existe. Tal como existe o engenho. O pior é quando ambos (vontade e engenho) nos abrem largas portas mas do outro lado da fronteira.
P.s. Este texto não é sobre mim. Felizmente sempre tive trabalho para ir pagando o meu mestrado. Mestrado que ainda não concluí porque não podia fazer ambos ao mesmo tempo. É sobre uma enormidade de bons investigadores que conheço sobreviventes de bolsa em bolsa, de estágio em estágio, sem um carro, uma casa ou família própria porque escolheram ser cientistas, produzir investigação. São a "nossa tecnologia de ponta" e parecem ter que possuir espírito missionário para continuar. Um bem-haja a todos.