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14.10.19

Redondos vocábulos 1




O Nobel de Peter Hendke vem levantar a velha questão-Celine... pode um escritor ser tão bom que vale a pena que nos esqueçamos de que é má pessoa?

E se, en extremis, ele é um apoiante do genocídio e ao mesmo tempo nos deixou das melhores reflexões sobre a passagem do tempo e o ligar a que pertencemos em Der Himmel uber Berlin (ou as Asas do Desejo) de Win Wenders? 



“If a nation loses its storytellers, it loses its childhood.”




“Loneliness is a source of loathsome ice-cold suffering, the suffering of unreality. At such times we need people to teach us that we're not really so far gone.”
― The Left-Handed Woman



“In a sense, the mentally deranged and feebleminded were my guardian angels, and when I hadn’t seen any of them in a long time, the sight of an idiot gave me a sudden burst of health and strength.”


Para mim a Arte não se separa da pessoa (que pode ser do pior tipo) e do artista só se pode esperar defeitos, pois no fundo ela é Humano.
A ideia de que o artista maior deve ser supra-humano, um homem sem defeitos, serve apenas a quem gosta do sabor baunilha.



23.3.18

Aos homens da nossa vida

Sean Ray
1986

É que no fim de contas vai-se tudo cingir a uma comparação entre nós e as vossas mães. E somos iguais. Embora nós sejamos as vencedoras.

26.9.13


 
 
Pela morte de Ramos Rosa (poeta que nunca tinha lido) ocorre-me que a Morte é o momento de maior atenção dado a um poeta. Constatação triste mas para a qual contribuo. Não são raras as vezes em que é depois de anunciado o desaparecimento que me levo a pegar em poesia.
A poesia que leio é avulsa. Um poema hoje e outro daqui a dias, normalmente pesquisada na internet, a  não ser nos autores que me são muito queridos. Se fosse por mim, é verdade, nenhum poeta tinha pão para colocar na boca.
 
Mas é isso que distingue a poesia. Nem sempre0 quem tem alma de poeta, quem gostaria de  apreciar os poemas, tem a eles acesso. Há muita gente com quem me cruzo, por caminhos e aldeias, que me esmaga com cinco palavras certeiras. Outros, pela TV ou jornais, embrulham-me o cérebro até quase o apagarem.
 
E se leio poemas é numa luta constante contra a ideia inculcada por anos de português mal ensinado de que o que interessa é a métrica, a rima e a as figuras de estilo...
 
 
A Poesia Vai Acabar

 

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

3.6.13

Ando aqui com uma dúvida


Se a Victória Beckam fosse portuguesa chamava-se José Castelo Branco não era?
(é verdade o Splash está a entranhar-se na minha vida domingueira)

9.3.13

Detesto paternalismos de género e por isso não sou fã do dia da Mulher mas tinha isto aqui guardado para um dia e olhem ontem foi o dia (postado hoje por extrema preguiça em vir ao portátil ontem)


"A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão. "



A Mulher Portuguesa Tem um Bocado de Pena dos Homens 

 " A mulher portuguesa não é só Fada do Lar, como Bruxa do Ar, Senhora do Mar e Menina Absolutamente Impossível de Domar. É melhor que o Homem Português, não por ser mulher, mas por ser mais portuguesa. Trabalha mais, sabe mais, quer mais e pode mais. Faz tudo mais à excepção de poucas actividades de discutível contribuição nacional (beber e comer de mais, ir ao futebol, etc). Portugal (i.e., os homens portugueses) pagam-lhe este serviço, pagando-lhes menos, ou até nada.

O pior defeito do Homem português é achar-se melhor e mais capaz que a Mulher. A maior qualidade da Mulher Portuguesa é não ligar nada a essas crassas generalizações, sabendo perfeitamente que não é verdade. Eis a primeira grande diferença: o Português liga muito à dicotomia Homem/Mulher; a Portuguesa não. O Português diz «O Homem isto, enquanto a Mulher aquilo». A Portuguesa diz «Depende». A única distinção que faz a Mulher Portuguesa é dizer, regra geral, que gosta mais dos homens do que das mulheres. E, como gostos não se discutem, é essa a única generalização indiscutível.

A Mulher Portuguesa é o oposto do que o Homem Português pensa. Também nesta frase se confirma a ideia de que o Homem pensa e a Mulher é, o Homem acha e a Mulher julga, o Homem racionaliza e a Mulher raciocina. E mais: mesmo esta distinção básica é feita porque este artigo não foi escrito por uma Mulher.

Porque é que aquilo que o Homem pensa que a Mulher é, é o oposto daquilo que a Mulher é, se cada Homem conhece de perto pelo menos uma Mulher? Porque o Português, para mal dele, julga sempre que a Mulher «dele» é diferente de todas as outras mulheres (um pouco como também acha, e faz gala disso, que ele é igual a todos os homens). A Mulher dele é selvagem mas as outras são mansas. A Mulher dele é fogo, ciúme, argúcia, domínio, cuidado. As outras são todas mais tépidas, parvas, galinhas, boazinhas, compreensíveis.

Ora a Mulher Portuguesa é tudo menos «compreensiva». Ou por outra: compreende, compreende perfeitamente, mas não aceita. Se perdoa é porque começa a menosprezar, a perder as ilusões, e a paciência. Para ela, a reacção mais violenta não é a raiva nem o ódio – é a indiferença. Se não se vinga não é por ser «boazinha» – é porque acha que não vale a pena.

A Mulher Portuguesa, sobretudo, atura o Homem. E o Homem, casca grossa, não compreende o vexame enorme que é ser aturado, juntamente com as crianças, o clima e os animais domésticos. Aturar alguém é o mesmo que dizer «coitadinho, ele não passa disto…» No fundo não é mais do que um acto de compaixão. A Mulher Portuguesa tem um bocado de pena dos Homens. E nisto, convenhamos, tem um bocado de razão.

O que safa o Homem, para além da pena, é a Mulher achar-lhe uma certa graça. A Mulher não pensa que este achar-graça é uma expressão superior da sua sensibilidade – pelo contrário, diverte-se com a ideia de ser oriundo de uma baixeza instintiva e pré-civilizacional, mas engraçada. Considera que aquilo que a leva a gostar de um Homem é uma fraqueza, um fenómeno puramente neuro-vegetativo ou para-simpático – enfim, pulsões alegres ou tristemente irresistíveis, sem qualquer valor.

E chegamos a outra característica importante. É que a Mulher Portuguesa, se pudesse cingir-se ao domínio da sua inteligência e mais pura vontade, nunca se meteria com Homem nenhum. Para quê? Se já sabe o que o Homem é? Aliás, não fossem certas questões desprezíveis da Natureza, passa muito bem sem os homens. No fundo encara-os como um fumador inveterado encara os cigarros: «Eu não devia, mas.. » E, como assim é, e não há nada a fazer, fuma-os alegremente com a atitude sã e filosófica do «Que se lixe».
Homens, em contrapartida, não podiam ser mais dependentes. Esta dependência, este ar desastrado e carente que nos está na cara, também vai fomentando alguma compaixão da parte das mulheres. A Mulher Portuguesa também atura o Homem porque acha que «ele sozinho, coitado; não se governava». O ditado «Quem manda na casa é ela, quem manda nela sou eu» é uma expressão da vacuidade do machismo português. A Mulher governa realmente o que é preciso governar, enquanto o homem, por abstracção ou inutilidade, se contenta com a aparência idiota de «mandar» nela. Mas ninguém manda nela. Quando muito, ela deixa que ele retenha a impressão de mandar. Porque ele, coitado, liga muito a essas coisas. Porque ele vive atormentado pelo terror que seria os amigos verificarem que ele, na realidade, não só na rua como em casa não «manda» absolutamente nada. «Mandar» é como «enviar» – é preciso ter algo para mandar e algo ao qual mandar. Esses algos são as mulheres que fazem.

O Homem é apenas alguém armado em carteiro. É o carteiro que está convencido que escreveu as cartas todas que diariamente entrega. A Mulher é a remetente e a destinatária que lhe alimenta essa ilusão, porque também não lhe faz diferença absolutamente nenhuma. Abre a porta de casa e diz «Muito obrigada». É quase uma questão de educação.

A imagem da «Mulher Portuguesa» que os homens portugueses fabricaram é apenas uma imagem da mulher com a qual eles realmente seriam capazes de se sentirem superiores. Uma galinha. Que dizer de um homem que é domador de galinhas, porque os outros animais lhe metem medo?
Na realidade, A Mulher Portuguesa é uma leoa que, por força das circunstâncias, sabe imitar a voz das galinhas, porque o rugir dela mete medo ao parceiro. Quando perdem a paciência, ou se cansam, cuidado. A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão. "

Miguel Esteves Cardoso, in ' A Causa das Coisas '

28.2.13



Acho que todos temos locais ou períodos do dia em que nos sentimos mais inspirados, com as ideias a navegar por mil patamares, quais quadros surrealistas, quase momentos oníricos. 
Eu tenho dois grandes catalisadores no que toca a criatividade, inspiração e deambulação mental, a música e a observação de pessoas sem que elas o percebam e no meu dia-a-dia esses momentos coincidem com o tempo que passo dentro do carro, no trânsito (sim eu sou uma pessoa que gosta de horas de ponta).
As ideias chegam a um tal fluxo (para a tese, para o blog, um comentário sarcástico que quero fixar, uma premissa para um texto, etc) que raramente os consigo lembrar.Quando paro o carro (e como não consigo escrever a conduzir) eles desaparecem como um sonho ao acordar. De vez em quando lá me lembro de um ou outro mas nunca fazem tanto sentido como a ideia inicial...
Isso, maus caros, é uma frustração. Ideias que voam.

19.12.12

Para que serve a TVI Ficção?



Para ver que até a Eunice Munoz e o Ruy de Carvalho foram mais novos.
Não vivas  a vida não Lili!

12.12.12

Usurpando por um post um tema visto noutras paragens


Existem as pessoas que a dado momento na sua relação se lembram de  Rick,  Ilsa e Sam e depois existem todas as outras.

12.9.12




Tendo em conta o quão in estão os restaurantes japoneses, ontem, no restaurante chinês onde fui comemorar a defesa da minha amiga L. olhei em volta e fiquei um pouco desconsolada, não vi ninguém de bigode. É que mais underground do que um restaurante chinês, por estes dias, não existe.

5.9.12

Sabes que é um português quando

... estando num país árabe onde é obrigatório que as mulheres usem um véu os trabalhadores da construção civil arranjam artimanhas (que incluem descobrir a faixa etária das senhoras) para lhes mandarem piropos no meio do mercado. Com risco dos acompanhantes masculinos darem pela coisa. Diz que elas ficavam doidas de contentamento.