Numa altura em que a direita e a esquerda são semelhantes e amorfas, e quanto a extremos se tocam, qual sardinha com rabo na boca ter uma opinião faz-nos logo ser rotulados.
Não há debate, conversa ou discussão. De repente estamos a defender trincheiras que nem sabíamos existirem.
26.3.18
"Irrita-me solenemente a modéstia hipócrita que reina no nosso país. Aquela mania que temos de ser muito pobrezinhos e honrados, muito cinzentinhos ou, melhor ainda, transparentezinhos, ficarmos no canto a sorrir discretamente, que as gargalhadas são coisa de gente descarada, à espera que nos reconheçam o valor que nos quiserem dar. Mas ainda me faz mais confusão aquele o pessoal que acha que ter valor é dourar a pílula ou acrescentar dez metros à cobra. Que põe patine em tudo, mesmo na madeira bichada. Não que a gabarolice alheia me afecte (antes isso que acharem que são o Napoleão ou a rainha Victória), mas fico a sempre a pensar: deve ser realmente muito triste ter de se ser postiço ou de fancaria para se poder ser alguma coisa nesta vida."
Trinta anos no passado e as viagens pelas estradas nacionais eram feitas ao som de ABBA, nessa época já um género de relíquia da juventude dos meus pais.
A adoração pela banda sueca passou para esta filha que não só se deu ao luxo de bambolear a anca ao som de Agneta e Anne-Fried no seu casamento como fez dos vídeos da banda um das suas brincadeiras favoritas.
São esses videos que em retrospectiva percebo serem a campanha visual de uma batalha e cheirinho a estragado no centro da banda. Tal como "pela boca morre o peixe", eu, que sou altamente crítica para com aqueles que acham break-up songs uma coisa muito romântica, linda de tal modo que as tornam nas "músicas oficiais" da relação... tenho que admitir que os meus pais andaram, de calça à boca de sino, patilhas e camisa de folhos e festejar sobre blood on the dancefloor.
Como prova aqui ficam três lindas musicas ABBA (o ambiente de cortar à faca é só um plus muito apreciado) e assim se prova que se nunca quiserem um comeback de uma banda de sucesso é só meter mulheres no ensemble. Mas fizeram um grande break-up album.
Quando acaba a festa e não queres ir para casa com o teu marido.
Lavar roupa suja em público.
É só um video de pessoas a mudar de casa depois de se separarem e em que ninguém olha para os outros. Get it?
Ando a viver dias de deriva. Uma pessoa pode andar sem norte por falta de possibilidades ou desnorteada por escolhas a mais.
No meu caso passa-se a segunda hipótese.
A isto junta-se o estado do mundo (apoteótico a meu ver) e tudo se verte nas minhas escolhas de espectadora de documentário.
Brigth Ligths
Motivada pela história triste em que Debbie Reynolds morre alguns dias após a sua filha Carrie Fisher descubro que o que mais temo é a morte dos que amo e que a Debbie era um unicórnio digno de admiração.
Demain
Quando me perguntam quando quero ter filhos.
Respostas sobre o que fazer se ainda há esperança no mundo.
Heart of Dog
Sou mãe do Óscar há move meses (o Óscar é o meu gato) e tenho-lhe amor infinito.
Há vários tipos de luto. Diversas expectativas perante a morte.
Mas aquele ser que sempre ali estava, de repente, desaparece. E nós ficamos mais sós...
Não é um filme, é uma experiência, é arte.
Life, Animated
O desconhecido é a mente de uma criança autista. Suponho que o tio Walt tenha ficadao muito feliz com o que aqui nos contam. No fim, chorei.
Está nomeado para Óscar.
George Harrison: living in the material world
Tantas vezes adiado finalmente me dediquei a este filme fundamental.
Fundamental por ser Scorcese (dos melhores a filmar música), fundamental por ser sobre o Harrison (o melhor dos Beatles), fundamental por ser sobre a vida que ele não quis viver.
The Beatles: eigth days a week
Ou de como só são grandes aqueles que levados aos píncaros da fama escolhem antes a arte.
Oasis: supersonic
Nunca gostei de Oasis.
Fiquei a gostar depois de ver este documentário.
Sobretudo do Noel e da sua versão do Wonderwall. Um autor vê-se na interpretação.
Lo and behold
Não há nada de Herzog de que não goste. Não é falta de critério é mesmo porque o senhor Werner transforma qualquer assunto em algo bonito.
Aqui, sobre o asfixiante mundo da internet e seus efeitos (e feitos) nos humanos.
13th
Europa. Exercício. Ver documentário mencionado em cima. Após visionamento pensar nos USA. Finalmente pensar em Trump.
Deveria ser exibido um pouco por todo o lado. Não será.
Nomeado para Óscar. Devia ganhar..
Into the Inferno
Vulcões e Homens.
Fluidamente unm pouco por todo o lado.
Um deslumbre entregue por Herzog.
Before the Flood
Quando me perguntam quando terei filhos.
Respostas para negação e sensibilização de convertidos.
Em bom!
24.3.16
Parece-me que vivi em segurança o melhor período de uma vida humana, a infância.
Nos idos de 80 e 90 a vida parecia promissora. Com um pouco de trabalho podíamos ter uma casa, família, um trabalho.
Por várias razões isso não se verifica. Nem trabalho, nem casa, nem filhos. Até os casais deixam de juntar os trapinhos porque os empregos precários não deixam. As paredes das casas dos pais, que tanto os abrigaram enquanto novos, são hoje as marcas de uma prisão.
A tudo isto junta-se esta névoa.
A conquista do ar foi um dos pináculos tecnológicos da humanidade. A possibilidade de acordar hoje em Lisboa e adormecer logo à noite em Moscovo era do reino da fábula. Mas o homem conseguiu. Estas viagens - os aviões - marcavam, também, a abertura global do homem. A sensação de pertencer mesmo a um único mundo. Esta sensação estava muito viva em 2000. Depois veio o que se sabe. A seguir a esta semana já só se viaja por necessidade. Pode ter subjacente um prazer (turismo, visitar família distante) mas aquela entrada no aeroporto e aquela travessia de avião são apenas uma etapa ansiosa para alcançar um fim.
O leão Cecil foi morto e há quem se assuma horrorizado com a humanidade. Há também quem refile com os primeiros e lembre que há pessoas a morrer no Mediterrâneo e na Palestina e... (isto é sempre uma pescadinha de rabo na boca ao estilo Chalie Hebdo em que afinal eram todos Charlie mas apenas até lhes pisarem os calos).
O acto com o Leão, a meu ver, revela o pior da Humanidade. Não há volta a dar. Estamos a pagar milhões de dólares, viajar de avião, andar não sei quantos kms por estradas manhosas, só para matar um animal, que anda na sua vida, sem que seja por uma necessidade maior do que o narcisismo. Porque a caça é isso mesmo. Uma atitude do género: a minha é maior que a tua.
- Olha apanhei uma perdiz e mais quatro lebres.
- Ahaha eu apanhei uma mãe javali mais cinco leitões!
Não diminuindo o que se passa no mundo inteiro (muitos milhões de injustiças e calamidades) nada me parece menos natural do que caçar por desporto.
Há guerras, os chimpanzés também matam, há crises de fome e território em todo o mundo desde o início dos tempos. É uma infelicidade mas é Humano.
Matar por troféus, criaturas que devíamos admirar, é mais do que lamentável. É bestial (como, feito por bestas)
Vamos então pensar nesse planeta Kepler e esperar por novos inícios ou fins menos vergonhosos.
"Below, in this brief (mildly NSFW) clip from the Kino Library, we see a typical evening at Max’s Kansas City with the likes of Candy Darling, a topless, insane-looking lipstick-smeared Brigid Berlin, Paul Morrissey, Patti Smith and Robert Mapplethorpe, Taylor Mead, Ray Johnson, Marisol and others. That’s Warhol’s Factory assistant Gerard Malanga who we see smoking as the voiceover reader says the word “pretentious.”"
Candy Darling, uma das estrelas do cinema de Warhol, Transexual e símbolo LGBT morreu, em 1974, aos 29 anos de linfoma. Foi a inspiração para várias formas de arte.
Uma fotografia sua, no leito de morte,da autoria de Peter Hujar, foi usada como capa do álbum de Anthony and The Johnsons I´m a Bird Now, de 2005.
Esta imagem foi captada no mesmo momento em que diz a suas últimas palavras "You Know I Couldn't Last" eternizadas numa música de Morrisey (que também se encontra no video acima).
Em 1987 os The Smiths usaram também uma imagem sua, uma still do filme Women in Revolt, como capa do single Sheila Take a Bow.
Também os Rolling Stones lhe dedicaram uma música - Citadel. Estes convieram de perto com toda a azáfama criativa da Factory enquanto se encontravam nos EUA.
Mas a referência maior a Candy e à sua vivência enquanto ocupante da Fábrica Warholiana veio em forma dois hinos
.
Uma música que, como um espírito deixado neste mundo, nos leva a esse universo paralelo de arte, experiência, loucura e liberdade.
5.5.14
"The ethical contend of photographs is fragile. With the possible exception of photographs of those horrors, like the Nazi camps, that have gained the status of ethical reference points, most photographs do not keep their emotional charge. A photograph of 1900 that was affecting then because of its subject would, today, be more likely to move us because it is a photograph taken in 1900. The particular qualities and intensions of photographs tend to be swallowed up in the generalized pathos of time past. Aesthetic distance seems built into the very experience of looking at photographs, it not rigth away, then certainly with the passsage of time. Time eventually positions most photographs, even the most amateurish, at the level of art."
Susan Sontag in On Photography
23.4.14
"Photographs may be more memorable than moving images, because they are a neat slice of time, not a flow. Television is a steam of underselected images, each of which cancels is predecessor. Each still photograph ia a privileged moment, turned into a slim object that one can keep and look at again."
Que fique já registado que gosto de Miró. Esteticamente. Lá está, é um gosto. Não percebo quase nada de arte (e o quase aqui pode lêr-se "mana historiadora de arte") e para mim as coisas resumem-se a gosto, não gosto e "tem importância histórica ou cultural".
O caso dos Mirós podia sair de uma lenda monphyntoniana. Um banca bandido rouba ao povo e (para além de outras coisas menos recomendáveis) decide comprar 80 e tal Mirós. Até ver, apenas porque sim. O banco vai à falência e o Estado Soberano decide comprar a cidade a arder. No meio de compra, que pelo que me apercebi só trouxe prejuizos, vêm os 80 e tal Mirós. Isto é tipo o maná no deserto mas o Estado Soberano, em vez de se nutrir com o que caiu dos céus, preservar algo de bom, decide vender o maná dos céus. Isto, quando há publicidade massiva a uma exposição no Museu Nacional de Arte Antiga com importantíssimas obras do Estado... espanhol. Ou quando se investiu imenso dinheiro numa exposição de obras de arte russas... onde? onde?... no Palácio Nacional da Ajuda.
Como se pode ver somos muito bons a dar casa a obras não portuguesas. O mal aqui está em como de repente até as obras estrangeiras são repudiadas. Dá para vender? Então vamos a isso!
Há vários monumentos nacionais que podem ser alugados para eventos. Acho justo. Se se pode rentabilizar o património sem o danificar ou desfigurar o seu carácter, o Estado, que é o dono, deve fazê-lo. Mantendo o acesso livre ao público obviamente e usando o dinheiro no próprio imóvel. Mas quando se começa a vender o património cultural a situação torna-se muito grave. Fico mesmo nauseada. Por me atingir tão de perto demorei muito a escrever sobre isto e o texto sai de forma totalmente incoerente.
O caso dos Mirós é mais do que o caso de um Estado que não vê o valor cultural e a mais valia que tais obras fariam ao seu acervo (até os Nazis queriam obras de arte...pilhadas é certo, mas não se pode ter tudo). O caso dos Mirós põe a nú o que muita gente já tinha visto: um Estado cuja definição ofende os asnos, cego culturalmente, sem escolaridade e formação. Este Estado são as pessoas que o compõem, um produto das tão mencionadas Jotas, que ascendem com cursos tirados aos fins de semana, que nunca exercem, por saberem que é a "lamber cús" que se sobe na vida. Assim, sem qualquer amor-próprio e guiados pela ganância vão os asnos Jotas subir os degraus da liderança governativa.
Leram um livro? Visitaram um museu (algo nunca visto numa campanha eleitoral)? Foram visto na estreia de um filme português? Sabem que a cultura é que define um povo? Que cidadãos esclarecidos são melhores em TUDO!!
Há, esperem, pois... também são melhores e mais sagazes a entender quando lhes estão a colocar uma venda nos olhos. Se calhar vão protestar.
Mas na realidade, depois de se cansarem, com os seus cursos, feitos académicos e profissionais e com a vontade que têm de trabalhar vão cansar-se e sair. Assim ficam por aqui os "bons cidadãos" aqueles que no facebook falam da pala do Estádio da Luz, do divórcios dos outros e da chuva e ventos fortes que (incrível) lhes molham a roupa.
E agora aqui fica uma imagem alusiva. Como Miró pode dar com chuva, vento e rua (nas Ramblas em Barcelona). Basta não prostituir a cultura.
QUEM VIU BEM MUDOU DE LADO QUEM FOI MAL REPIOROU QUEM TEM CÁ PROTECTORADO NÃO FEZ FILA NEM PAGOU QUEM TEVE AULA DE BANDIDO LEVA AFAGO DE LUVA BRANCA QUEM VIU CABRAS NA PASTAGEM LHES CANTASSE A MODA FRANCA
5.3.13
Há 15 anos era uma miúda.São várias as coisas que esqueci (que os 20 anos da TVI tem trazido de volta) e outras que retive sem o querer. Algumas são situações, outras pessoas. Uma pequena parte gente que conheço e outra, bem grande, gente que me chega por outros meios, televisão, jornais, etc.
Sem o querer há uma família que se tornou recorrente ao longo desses anos.
Vi as suas caras envelhecerem com as lágrimas que mais tarde secaram com o sofrimento. Vi os olhos perderem o ânimo, mas nunca a esperança. Lembro-me do avô e da irmã pequena. Agora julgo que é médica. Um orgulho e uma coragem que nascem da dor e do amor filial.
Há muitos ombros nessa casa, ombros que se colam uns aos outros para suportar o peso da dor e esperarem juntos, unidos, que o futuro seja amigo.
De vez em quando penso neles, mesmo quando não aparecem na televisão, e é aí que sei que fazem também parte da minha história. Não é curiosidade, não é pena, é um género de afinidade, de (felizmente apenas) imaginar o que é ser aquela família que se tornou o rosto conhecido de inúmeras outras.
Também eu ontem sorri, pela primeira vez, com a família do Rui Pedro.