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13.1.19

A morte em 3 actos por Julian Barnes


1. "So here´s another logical inevitability. Just as every writer will have a last reades, so every corpse will have a last visitor."

2. "In the hierarchy of the dead it is visitor numbers that count. Is there anything sadder than an unvisited grave?"

3. "Faulkner said that a writer´s  obituary should read: 'He wrotr books, and then he died'".

Julian Barnes in Death


Textinho mui precioso que me fez pensar numa série de mortes cinematográficas. 

A mais invejada, Dom Corleone merece o melhor...


A mais esperada. Três horas (e dois filmes depois) o perfeito anticlimax.


O que fica da nossa vida é a construção de quem deixamos.







4.3.17

29 anos e uma depressão










Ren Hang
e 
a prova de que o tempo não é preciso para nada 
quando se é imensamente bom

3.11.13

Fui a Vila Chã e chorei




Há uma terra, para os lados do Barreiro, que se chama Vila Chã. Depois de morta, a Rosa, minha avó, foi para lá.
Vila Chã nunca tinha existido para  mim. Hoje é um sítio que visito de tempos a tempos. Na sexta-feira, por saber que a avó Rosa gostaria, fui lá. Sentei-me na borda da campa e conversei com a avó Rosa como sempre o fiz, voz alta, olhos expressivos e sorriso na cara. Contei-lhe dos amores, da minha vida nova em Beja, da minha mana caçula e de como está a viver bem a vida, dos meus pais no seu amor de décadas e da minha prima, caloira este ano. Falei-lhe do que gostava que ela tivesse presenciado (a defesa da minha tese, que lhe dediquei; a minha casa, onde há tanto dela) e disse do que tinha saudades (os abraços com amor, as conversas ao telefone, os beijinhos intermináveis, a canja, a cerelac, o arroz doce e os biscoitos).
Levantei-me e ao fundo da campa, chorei! Há amor, há saudade!
 
A minha avó nunca morou em Vila Chã. Foi um dos acasos da vida (ou da morte) que ditaram que era ali que ela iria ficar. A minha avó mora debaixo das videira, onde em criança se deitava a comer uvas directamente da árvore. Mora em todas as ruas de Campo de Ourique onde viveu a felicidade que envolve os recém-casados. Mora nas lezírias do Ribatejo, onde os frutos são silvestres, os touros seguem com o olhar os que passam nos caminhos e a sopa é da Pedra. Mora no braço da minha mana caçula onde está tatuada a frase que tanto dizia e mais nos marcou, não uma frase poética mas sim uma frase feita - a vida é maravilhosa. Mora em nós, nos nossos gestos, palavras e hábitos.
 
Fui chorar a Vila Chã mas, diariamente, sorrio onde estiver. É um sorriso de avó Rosa.

30.10.13

Especial Halloween: Le Magasin des Suicides!



Primeiro li o pequeno livro - muito negro - de Jean Touré. A família Touvache gere um negócio peculiar, uma loja que vende apetrechos para suicídios que seriam comuns numa realidade temporal longínqua (?). Tudo muda quando nasce o terceiro filho, um bebé que, ao contrário da restante família, sorri como a Primavera e apenas busca a felicidade, pondo em risco o sustento familiar. 
O filme de animação, realizado por Patrice Leconte, é um objecto interessante em termos visuais e de público, desaconselhando-se a crianças (tripas, nudez e venenos) mas sendo ternurento para os adultos.
No final ainda ficamos a pensar na vida diária de muita gente que gostaria de ter à mão uma loja com este propósito.

28.10.13

Sobre Lou Reed (a quem voltaremos mais tarde)


Mensagem que escrevi no Facebook e respectivo vídeo:

"A morte tem destas coisas. De um momento para o outro o Facebook (tantas vezes ofendido) tornou-se num gigante mural de recordações e pensamentos sobre Lou Reed e a sua influência em cada um. Com os ouvidos da democracia cada pessoa vai escolhendo do catálogo musical extenso aquela música ou álbum que lhe é especialmente querido para depois os partilharem. Afinal a boa música - não tem que ser especialmente alternativa ou comercial - sobrepõe-se ao mau gosto idiota com que nos querem brindar e sobrevive. Sempre.
Deixo um álbum que, julgo, se adequa aos tempos, uma homenagem (e base de inspiração) de Lou ao Corvo de Allen Poe."

29.9.13



 
"Muito se disse já acerca do Robert, e mais se dirá ainda. Haverá rapazes que adoptarão o modo de andar dele. Raparigas que envergarão vestidos brancos e cumprirão luto pelos caracóis dele. Será condenado e adorado. Os seus excessos, amaldiçoados ou romantizados. No fim, a verdade será encontrada na obra dele, a evidência corpórea do artista. Ela não decairá. Os homens não podem julga-la. Porque a arte é um cântico a Deus, e derradeiramente a ele pertence."
 
 
 
"Despedimo-nos e saí do quarto dele. Mas algo me fez voltar atrás. Ele tinha caído num sono leve. Fiquei ali a olhá-lo. Tão tranquilo, como uma criança antiga. De súbito ele abriu os olhos e sorriu-me. "Já voltas-te?" E depois tornou a dormir.
Por isso a minha última imagem foi como a primeira. Um mancebo adormecido envolto em luz, que abriu os olhos com um sorriso de reconhecimento para alguém que jamais fora uma estranha."

Patti Smith in Just Kids

1.4.13

Fim



Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam estalar no ar chicotes
Chamem palhaços e acrobatas
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa
E eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

3.2.13



A L´Inconnue de la Seine é a mulher desconhecida que nos finais de 1880 foi encontrada afogada no rio Seine. Tendo uma complexão tão serena e bonita, mesmo após a morte, foi feito um modelo da sua cara. Muito mais tarde a sua face foi usada na primeira boneca criada para treinar os exercícios de reanimação (muitas vezes aplicados a afogados como a original mulher desconhecida) baptizada de "Rescue Anne".



1.2.13

Ai que estou espartilhada!



Durante o século XIX e inícios do século XX muitas mulheres sofreram ao ter que usar espartilhos - dos verdadeiros, com osso de baleia - que lhes definiam a cintura. Entre muitas costelas partidas (como  se vê pela imagem elas ficavam bastante constrangidas) também os pulmões e caixa torácica eram espremidos fazendo com que a falta de ar ou afectação do batimento cardíaco não fossem invulgares. Muitas mulheres morreram devido a esta opção de beleza.

7.1.13

Quem dormia aqui?



Eu gostava de passar umas noites neste castelo Orava, localizado na Eslováquia, mas já viver não me parece.
Até as árvores dão um ar sinistro ao local não é?

Acrescente-se que o castelo está localizado sobre um precipício que se debruça sobre o rio Orava e foi construído no longínquo século XIII, sendo a parte representada no imagem apenas uma parcela do complexo.

Cereja em cima do negro bolo: foram aqui filmadas várias cenas do filme Nosferatu de 1922. Não viram? Oram colmatem lá essa falha clicando no nome do filme.

4.1.13






"Depois de perderes a tua água, a maior parte do teu peso era carbono. As tuas moléculas espalharam-se, foram novamente usadas, tornaram-se átomos e partículas, quarks e laptões. Pediste emprestado ao planeta, que pediu emprestado ao Universo. Um empréstimo de curto prazo. Enquanto o planeta pisca um olho, tu nasces-te, morreste e os teus ossos desintegraram-se."

Philipp Meyer in Ferrugem Americana

29.12.12

2012



Neil Armstrong, Ravi Shankar, Gore Vidal, Manuel António Pina, Sally Ride, Ray Bradbury, Moebius, Maria Keil, Oscar Niemeyer, Fernando Lopes, Etta James, Bernardo Sassetti, Antonio Tabucchi, Miguel Portas, Gerry Andreson.

Também isto foi 2012.

27.11.12

Da morte


Tenho uma maneira muito própria de lidar com a morte, tal como qualquer um suponho, mas talvez a minha seja mais peculiar porque é a morte e os mortos o âmago da minha área de investigação (a área de trabalho embora intersecte em alguns momentos a de estudo é neste momento distinta). 
De um modo geral investigo  a evolução do Homem mas a partir de material ósseo antigo o que me faz conhecer e investigar também a forma como esses ossos chegaram até mim, o modo como foram enterrados e tratados de maneira a aprender com os mortos como eram os vivos. Na verdade é um estudo biológico e cultural interessantíssimo e que nos dá uma perspectiva sobre os vários aspectos da humanidade. Confere também a quem investiga um certo cinismo em relação à actualidade, é um problema de quem estuda a história do Homem.
Obviamente que para muita gente isto é mórbido e eu tento sempre abordar este assunto com algum tacto aqui no blog mas, sendo este uma extensão de mim, também não poderia passar ao lado dessa parte da minha vida.

Há, também, óbvias consequências para mim quando sou confrontada com a morte de conhecidos, queridos ou a própria (futura) morte. Claro que a falta física das pessoas, a saudade, é sentida de modo igual mas tudo o resto é altamente processado psicologicamente, desde formas de enterramento até ao processo de decomposição, tendo aos 27 anos disposição muito concretas em relação ao meu funeral por exemplo. E acreditem que não sou uma gótica com a mania que só lê Baudelaire.

Dito isto, em jeito de apresentação, é normal que de tempos a tempos, de uma forma ou outra aborde aqui algumas das descobertas (sobretudo a nível da cultura) que faço sobre este funesto tema. Até porque acho que a partir do momento em que entendemos que a morte é o destino final, que é inevitável, conseguimos uma maior leveza no modo como lidamos com a vida.

Hoje trago um link para um livro que achei uma verdadeira pérola. É uma obra de finais do século XIX sobre a História do Luto, deste o Egipto até à época. É importante referir que em plena época vitoriana, época do livro, a morte era tratada de perto e como algo comum, não sendo infrequente que se tirassem fotografias de entre queridos falecidos como única memória destes.


 Foto original da 1915, com uma descendente também chamada Nancy a posar junto à uma campa de uma familiar. Note-se que a pessoa morreu cerca de 100 anos antes da foto ser tirada sendo quase encarada como uma antiguidade.

8.11.12




"there, on our favourite seat, the silver light of the moon struck a half-reclining figure, snowy white... something dark stood behind the seat where the white figure shone, and bent over it. What it was, whether man or beast, I could not tell."

Bram Stoker in  Drácula

165 anos do nascimento de Bram Stoker, hoje. Um pouco menos desde aquele momento em que depois de um desafio entre amigos regado a álcool  nascem duas obras imortais da literatura: Drácula pela mão de Bram Stoker e Frankenstein por Mary Shelley. Momentos sombriamente iluminados esses.

Li Drácula aos 14 anos e desde aí talvez tenha voltado ao livro umas quatro ou cinco vezes e acho nele sempre algo novo. Mais do que o lado romântico, esotérico, étnico ou mesmo histórico o que me surpreende sempre é a forma - um diário - tão frequentemente usada mas aqui com uma fineza especial, transmitindo-nos apenas aquilo que quem escreve conhece e mantendo-nos na obscuridade quanto ao resto (um truque muito a la Hitchcock) e pela facilidade com que se lêem 500 páginas de um romance com quase 150 anos.

Quando chegar a Lisboa vou retirá-lo da estante e colocar na pilha dos livros  a (re)ler em breve.

1.11.12

Tentar Saber algo Sobre a Morte



O Triunfo da Morte, Bruegel, retratando a vaga de peste negra no século XIV

"Tentar saber algo sobre a morte é tentar saber algo sobre a vida. A literatura dá-nos a ver verdades que só podem ser usadas por nós próprios, que são as nossas convicções e as respostas essenciais a perguntas para as quais todos temos de ter uma resposta. (...) A morte é natural, a maior certeza que temos sobre qualquer coisa é que vai ter o seu fim. Os dias começam e acabam, tudo acaba... Fechar os olhos ao que quer que seja, ignorar, fingir que não existe, nunca é bom, sobretudo em relação a coisas que existem de facto e a morte existe de facto. Lamento, mas não fui eu que inventei o mundo nem a morte. "

José Luís Peixoto, in 'Diário de Notícias (2003)

 

24.9.12

Arte e Literatura


© Henrique Oliveira
Casa dos Leões (Brazil)

“The oldest and strongest emotion of mankind is fear, and the oldest and strongest kind of fear is fear of the unknown”  

H.P. Lovecraft


Quem leu o conto de horror The Shunned House de H. P. Lovecraft (se não leram podem fazer download gratuito aqui através do Projecto Gutenberg já que o conto é de domínio público) imaginou como seria aquela casa aterradora onde os acontecimentos se passam. Quando dei com  foto desta casa - A Casa dos Leões - um trabalho do artista plástico Henrique Oliveira (para mais trabalhos carregar sobre o seu nome) foi imediata a associação  da imagem ao que a minha criatividade tinha gerado com a leitura.



20.9.12

Nem sempre tudo é o que parece




...como aqui. 
Estas são figuras de cera que ficaram danificadas num incêndio no Madame Tussauds (Londres, 1930).

Preguei um susto agora, não foi?

18.9.12

The haunted palace

(Mansão construída por Ivan Ropet nos finais do século XIX, na aldeia abandonada de Ostashevo, na região de Chuhlomskoy Kostroma, Rússia)

In the greenest of our valleys
   By good angels tenanted,
Once a fair and stately palace—
   Radiant palace—reared its head.
In the monarch Thought’s dominion,
   It stood there!
Never seraph spread a pinion
   Over fabric half so fair!

Banners yellow, glorious, golden,
   On its roof did float and flow
(This—all this—was in the olden
   Time long ago)
And every gentle air that dallied,
   In that sweet day,
Along the ramparts plumed and pallid,
   A wingèd odor went away.

Wanderers in that happy valley,
   Through two luminous windows, saw
Spirits moving musically
   To a lute’s well-tunèd law,
Round about a throne where, sitting,
   Porphyrogene!
In state his glory well befitting,
   The ruler of the realm was seen.

And all with pearl and ruby glowing
   Was the fair palace door,
Through which came flowing, flowing, flowing
   And sparkling evermore,
A troop of Echoes, whose sweet duty
   Was but to sing,
In voices of surpassing beauty,
   The wit and wisdom of their king.

But evil things, in robes of sorrow,
   Assailed the monarch’s high estate;
(Ah, let us mourn!—for never morrow
   Shall dawn upon him, desolate!)
And round about his home the glory
   That blushed and bloomed
Is but a dim-remembered story
   Of the old time entombed.

And travellers, now, within that valley,
   Through the red-litten windows see
Vast forms that move fantastically
   To a discordant melody;
While, like a ghastly rapid river,
   Through the pale door
A hideous throng rush out forever,
   And laugh—but smile no more.
Edgar Allen Poe
(pelos visto ando com uma certa tendência para o Sr. Poe) 

Mais sobre a casa, aqui.

14.9.12




"The boundaries which divide Life from Death are at best shadowy and vague. Who shall say where the one ends, and where the other begins?"

in The Premature Burial (1844) by Edgar Allen Poe

*Imagem por Harry Clarke (1989-1931), para a ilustração do referido conto