19.10.12

Fundações, património e identidade (o futuro na sarjeta)





Há uma fundação em Portugal que gere um dos mais importantes acervos culturais deste país. Um acervo que foi poupado à destruição e ao esquecimento depois de uma luta intensa que juntou a população e as cabeças pensantes deste país e do mundo. Alguns anos mais tarde essa luta (e o país) foi recompensada com a classificação recebida da UNESCO de património da Humanidade. Falo das gravuras de Foz Côa.
Estas gravuras, que muitos não entendem ou conseguem descortinar, são uma das representações artísticas mais antigas de sempre. Há milhares de anos, quando ainda não se usava taças de barro ou outros apetrechos, já o Homem tinha necessidade de "deitar para fora" o que tinha dentro da sua cabeça ou então de apreender temporalmente imagens que via durante a vida. Esta necessidade de representação é única e nós temos um enorme e único acervo no nosso país.
Para estimular a visita e conhecimento destas gravuras (que atravessaram milénios e às quais se juntaram outras, mais recentes, compilando nas paredes arte de várias civilizações - que terminam na época actual) foi edificado um edifício lindíssimo que possuí uma das melhor elaboradas/cuidadas exposições sobre história e arte que tive oportunidade de ver. Oportunamente o Museu do Côa ainda se insere de modo perfeito na paisagem que o rodeia (linda por sinal) e convida a longas caminhadas e reflexões por um país interior que vale a pena conhecer.

Para gerir este património foi criada a Fundação do Côa, uma das que agora está na calha para ser extinguida. Apenas duas considerações vos trago. A primeira é que o património, por si só, já é riqueza, embora possa gerar algum financiamento não é por não o gerar que deva ser ignorado, maltratado ou abandonado. Património é cultura e identidade. É a fundação e a história de uma nação. São os costumes, que ainda hoje temos, os hábitos de linguagem, gestos, sentir e pensar.  Não há pior do que uma nação sem identidade. Porque então é a nação de quê e de quem? Segundo: entre tantas fundações ligadas a pessoas, com financiamentos duvidosos, que apenas parecem enaltecer indivíduos (Mário Soares por exemplo) ou manter o seu património (imóveis etc) gerivel pelos herdeiros, foi a Fundação do Côa, que representa um património da HUMANINADE (porque as gravuras aqui representam a herança histórica da arte e do pensamento do Homem - Homo sapiens - ou seja, é fundadora de portugueses mas também de esquimós (Inuit), indianos, sumérios, egipcios, americanos ou alemães) que, juntamente com apenas outras três fundações, levou com a fava?

Texto inspirado por este artigo. Fotos minhas depois de uma visita ao Museu do Côa que recomendo vivamente.

2 comentários:

  1. A não perder! Se fosse no estrangeiro faziam-se romarias, excursões e outras que tais. É único.
    Ouvi ontem numa conferência José Pacheco Pereira falar sobre o seu 'vício' de recolector de 'coisas velhas', cuja disponibilidade é total via net e interessa milhares de cidadãos no mundo inteiro por dia. Confessou que uma das soluções possíveis para todo este património era uma Fundação, que agora já não é possível: as grandes fundações ficam todas... as pequenas, as que chegam ao cidadão comum e que se esforçam para deixar um legado, pequeno, mas que funciona como um elo de uma grande cadeia, essas desaparecem todas.
    Perde-se a identidade... perdemonos também.

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    1. Isso mesmo! E nós a assistir quase impotentes!

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