16.4.16

Lili de onde vem o teu requintado gosto musical?


Pois parece que não existe. 
Quando os Pop Dell Arte andavam nos palcos a Lili tinha uns 6 anos e ouvia Onda Choc.
Tivesse eu um irmão mais velho e teria descoberto os Velvet Underground e a Janis bem mais cedo que vim a descobrir.

Acasalamentos



“Maybe it's just hiding somewhere. Or gone on a trip to come home. But falling in love is always a pretty crazy thing. It might appear out of the blue and just grab you. Who knows — maybe even tomorrow.”

Haruki Murakami, Sputnik Meu Amor

11.4.16

DNA




Durante 4 anos fiz 10 vezes por semana o eixo Odivelas - Cidade Universitária. Primeiro de autocarro e depois de metro.
Durante 4 anos fui acompanhada por muitos livros e revistas mas a minha constante semanal era sempre a DNA. Foi lá que fiquei a conhecer Llhasa de Sela e os primores da imprensa regional, por exemplo.
Disso mo lembraram recentemente, aqui e aqui, dois dos seus conspirativos autores. 
Deixou um espaço, ainda, vazio.

10.4.16




O Soares Filho decidiu que não estava para ser ministro. Ou então achava que podia mais do que realmente podia. Entre o suicídio voluntário e o involuntário vai ficar sempre um ponto de interrogação mas o que me anda a incomodar mesmo é saber quem poderá ser um bom ministro da cultura. Não os houve, independentemente da cor partidária, desde que me lembro. De há 13 anos para cá, por a minha profissão prestar contas ao ministério da cultura, estou mais atenta e continuo sem discernir um único que se aproveitasse. E já se tentou de tudo: agentes culturais, humanistas (Carrilho? sic), músicos, escritores, antigos presidentes da câmara, produtores... Acho que se tem assistido a uma visão muito compartimentada da cultura de que é culpada, em parte, a divisão exagerada em institutos e centros dentro do ministério. Para fazer orçamentos é uma dor de cabeça porque é mais simples se estes forem estanques mas sendo estanques não há articulação. O que falta é uma visão de conjunto. 

A cultura é antes de mais um conceito e um meio. O conceito é essencialmente pessoal (o que eu assumo como cultura) mas também quantitativo (a quantidade de cultura de uma pessoa, comunidade e, neste caso, País). Ora neste ultimo ponto estamos - felizmente - bem colocados. Portugal tem vasta história cultural que cobre todas as artes e patrimónios e praticamente todo o globo. Ao nível individual, e basta falar com alguém de classe baixa em Londres e alguém de classe baixa em Lisboa, há uma falha de enorme envergadura. É aqui que este ministério tem que actuar. Na articulação com a educação. Tem que se explicar qual a vantagem de conceder subsídio ao filme X, porque é que a peça Y é pertinente ou a exposição X, financiada com os nossos impostos, deve ser visitada por todos. Num Estado democrático a cultura não pode ser da elite tem que ser de todos. Trabalho frequentemente com pessoas sem a 4ª classe que (e viva a democratização dos meios de informação) devoram documentários sobre animais e história. Ainda assim, a título de exemplo, acham que os Jogos Olímpicos foram inventados por Hitler (a sério aconteceu). Na cultura, tal como mais especificamente no património, acarinha-se e preserva-se o que se entende e para entender é preciso conhecer. Não é só distribuir apoios aqui e ali de uma maneira autofágica.

Do outro lado da moeda está a cultura como meio. Meio de atracção para gerar receitas ,isso mesmo! Porque se estamos de acordo que esta é uma economia capitalista estamos de acordo que é preciso gerar dinheiro. E as coisas não se podem manter apenas com os nossos impostos. Esta linha de pensamento foi seguida de dois modos muito diferentes em países como França e Inglaterra. No primeiro caso iniciou-se há muitos anos o licenciamento das obras nos museus para fins comerciais (qualquer obra que apareça num filme, por exemplo, foi licenciada). Em Inglaterra, com a política de acesso gratuito às exposições permanentes dos museus nacionais criou-se um mercado: as pessoas voltam regularmente para as exposições temporárias, sempre muito bem montadas e de grande interesse e acabam por investir muito nos souveniers. Em Portugal caiu o Carmo e Trindade com a gratuitidade dos domingos. Que os museus não iam ter lucro, que se ia  ter que cortar no pessoal, etc... Ora os museus não devem ter lucro com os seus acervos permanentes, que estão em exposições montadas há mais de 20 anos e que pertencem a todos nós, os cidadãos. Devem isso sim investir na formação e rotatividade de exposições (temporárias e pagas) e na divulgação da sua imagem e espólio (souveniers). Estes últimos para além de dois catálogos sempre disponíveis (da exposição permanente e da temporária, uma utopia... não existem em lado nenhum) deveria incorporar vários suportes das peças expostas que se enquadrassem numa política de preços (dos muito baratos aos muito caros) e de tipo de público (desde as crianças até aos idosos passando por várias profissões).

Este texto não tem grande unidade mas saiu a quente por isso aqui fica para memória futura. A cultura é dos ministérios com mais potencialidades, deve ser gerido por alguém que não é uma estrela rock mas sim pessoa de reflexão. A cultura, antes de mais, deve ser pensada.

9.4.16

Ainda Janeiro não tinha acabado e já 2016 tinha deixado a sua marca


A minha viagem ao Norte foi muito mais que formativa.  Sozinha e com uma rota  a seguir foram poucas as fotografias tiradas. Ando a aborrecer-me com todas as imagens. Prefiro usufruir. Isso é uma coisa que tem chegando de pantufas com os anos. 


A chegada à capital do país escocês é das bonitas que tive o prazer de experimentar. Mais de 15 minutos sobre o rio, as pontes e as ilhas. Tempo suficiente para reviver os livros e os filmes chave. Já estava rendida e ainda não tinha colocado os pés em terra. 




Edimburgo é uma cidade lindíssima. Começo a ter inveja das pessoas que vivem nestes locais com muito terreno plano e boas ruas para andar de bicicleta. O céu não costuma estar azul (segundo relato de amigos residentes) e o frio é mais que muito. Gosto muitíssimo. Visitei a Biblioteca Nacional da Escócia que não envergonha o país. E... corri em Princess Street.


Saí da Escócia num comboio inglês no meio de uma tempestade de neve (ah as almas românticas encontraram aqui abrigo seguro). O campo e costa que visitei com o olhar (Northumbria) durante a viagem até Durham eram deslumbrantes. Voltarei, um dia. Equipada com vontade, dinheiro e um amigo que queira conduzir do lado errado da estrada.
Durham é uma cidade de conto de fadas. Reparei que o meu deslumbramento imediato à vista de cada nova localidade é inversamente proporcional às gruas que se elevam nos céus. Aqui não há gruas. A cidade é mágica. As pessoas são simpáticas. Aceitam dinheiro escoçês sem fazer má cara e levam-nos a provas de vinhos. Voltarei.

O prazer de viajar sozinha está a crescer. Talvez com um irmão seja igualmente recompensador, não há grandes fretes que se faça com irmãos. Com um amante é capaz de tornar a coisa mais como uma paisagem do que uma vivência. Amigos só muito selecionados... aqueles que amamos como a irmãos.

8.4.16

Dias Úteis




Seminário de doutorandos. Patologia oral de Palencia e procedimentos cirúrgicos nos hospitais. Tudo em gente que  - pelo menos - morreu há 100 anos. Biblioteca Geral da Universidade: o buraco negro onde se escondem as almas estudiosas mais atormentadas (um dia farei aqui o devido post sobre este local tão místico). Casa. Começar a ver o ultimo filme do Gaspar Noé. Um segundo e uma pila depois decido que não é o melhor dia. Biblioteca Geral. Gente do secundário que veio visitar a instituição entra na sala de leitura aos berros. Oiço um toque do Bieber. Morro um pouco por dentro e julgo que a chinesa ao meu lado deixou cair uma lágrima. Encarregam-me de zelar por uma sala que não frequento (se não a começar a frequentar ela desaparece, deixa de ser sala). Casa. Noe? Better call Saul para acalmar. Trabalho no Porto. 6 da manhã estou de pé entusiasmada. "Que bom é este trabalho que me permite ir ao Porto a meio da semana!". 9 horas, no Porto. O local de trabalho é dos mais bonitos que tive. Afinal em Gaia, junto ao antigo Hard Club. Prazeres meus. Vista deslumbrada e descoberta de todo o monte Porto. Passadas duas horas o trabalho está terminado. Vou passear até à hora do expresso. O Porto está giro! Dá vontade de viver ali. Muita gente, turistas pouco usuais, pessoas que param na rua a olhar. Muito bonito. Também lá há mendigos e sem-abrigo.  Toda a fruta fica podre. Voltar. Casa. Better call Saul. Dia na Biblioteca Geral. Os tipos de direito são os piores. Estudam (ou decoram falas como um actor) batendo com as mãos na cabeça. Eu cá que sou de humanidades e ciências menos exactas assusto-me. Estou habituada a compreender e não a calcar informação. Missão Biblioteca Geral cumprida. Vou a um bar e a única coisa que ingiro são batatas fritas. Sinal claro de que estou a levar a sério o doutoramento (ou que já tenho pouco dinheiro/ neurónios para gastar). Casa. Better call Saul. Aulas. Almoço com amigos na esplanada. Meia hora a ver uma criatura estacionar o carro meio em cima do passeio meio na estrada. Limpar o mail (não concluído). Pesquisar sobre congressos. Lavar a roupa na lavandaria da universidade. Texas. Cada um armado com o seu saco do Continente cheio de roupa suja a querer ficar em primeiro na fila para as máquinas de lavar. Casa. Filme do Gaspar Noé. Pausa para vir aqui escrever esta parvoíce em que omito metade das minhas alegrias semanais e a totalidade das minhas tristezas. Soares Filho e Vasconcelas mostraram a cara. Woodkid mostra o génio. Não há como boas notícias que nos prepararmos para o fim de semana.

5.4.16

Cover me up






É por Ti que Vivo

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

Como só bebo água e vou sempre para o lado dos salgados a personalidade saltitante é mesmo feitio



Se tivesse filhos...




...eles andavam de ovelha!

4.4.16

Uma Páscoa portuguesa com certeza




Os meus pais gostam muito de juntar a família em torno dos feriados. Tanto vale para a Páscoa como para o 25 e Abril. Desta vez o ajuntamento levou-nos ali para o lado de Mafra e o meu pai, meio investido pela nostalgia meio pela falta de noção de que a filha mais nova (que não sou eu) já tem 22 anos quis ir buscar farturas ao Sobreiro. Para quem não sabe o Sobreiro é uma pequena aldeia à beira da estrada conhecido por ter um parque de diversões rural. Tem direito a todas as profissões de artesãos em cada casinha e ainda a alguns extras como a escola primária dos tempos do estado novo, uma nora (que muitas crianças não conhecem se não dali), um moinho, etc. Foi tudo ideia de um senhor (O Sr. Franco), autodidacta, muito empenhado.

Comentário de visitante nº1 enquanto as crianças felizes corriam por todo o lado: - Isto é muito engraçado realmente mas o homem não devia ter mais nada para fazer.
Comentário de visitante nº2 para a cria de uns 7 anos - Põe aí junto à "azenhe". Isso servia para os burros fazerem exercício...
Comentário de visitante nº3, Pessoa com 35 anos, com ar de morar numa boa vivenda da Linha, na fila para comprar pão com chouriço - Vês o que eu te digo Miguel... na altura davam pão com chouriço às crianças pobres da escola....

Pois é Sr. Franco not enough, not enough.



A vossa escriba, na dita aldeia, em torno do ano 2000, quando era uma jove, tinha pele lisa e suave e acreditava ser boa ideia ir namorar para os locais onde tinha sido feliz na infância. Obviamente esse namoro não pegou.

2.4.16

Diz que passa no IndieLisboa




"On stage I make love to twenty five thousand people; and then I go home alone." 



Trump desiste da corrida presidencial e torna-se júri no So do you think you can dance?. Os atentados dos DAESH terminam para todo o sempre porque se descobre que o petróleo é muito poluente investindo-se em combustíveis  renováveis e quase gratuitos. Lulilma vai em peregrinação a Lhasa onde descobre os ensinamentos de Sidharta. Larga o poder  e altera as suas práticas de modo a fazer meditação pelo menos três vezes por dia e iniciando o nobre caminho octuplo de modo a terminar com o sofrimento e beneficiar de um melhor samsara. Angela vai a Cannes mas escolhe ficar na praia a apanhar Sol. Goucha bane Tininha e apresenta agora um programa literário na Antena 1. Tininha muda-se para os states e é a nova boss do The Apprendice. Emigrantes começam a usar o avião após formação intensiva. O novo Marcelo de Belém arranja um cão.

Terminou a March Madness. Regressaremos à vida real em breve. 



Mandar lixar os dias que parecem escurecer tudo vendo como há coisas tão bonitas a ser feitas pelos homens.
Saved by art.

29.3.16

Set my mood



Onde se disserta sobre a razão porque que todas as filhas dos anos 90 e 00 deviam ver a série do O.J. Simpson


Marcia Rachel Clark, a real e a interprete (Sara Paulson)

Mais do que se é culpa do ou não a série American Crime Story - O.J. Simpson devolve-nos um mundo pré 11 de Setembro. Quando se observa toda a investigação do crime em análise o que nos surge na mente é "como é que só fizeram isto? como é que não viram aquilo?". Uns 10 anos a ver programas como CSI (que estrearam pouco mais de 6 anos depois do caso O.J.) fazem do público melhores inquisidores.
No entanto o que marca mais é o modo como Marcia - a procuradora principal - é tratada. De tão espantava até fui ver se assim era mesmo. Ora acontece que Marcia é inicialmente a personagem que tem a faca e o queijo na mão. A verdade parece estar do seu lado. Mas a sua condição de mulher enfraquece-a. Divorciada e mãe de filhos é confrontada desde logo com o tempo que pode dispensar a uma investigação desta envergadura. Quando não consegue estar com as crianças e se vê obrigada a pedir ajuda ao ex-marido é descrita por este como má mãe. A meio do julgamento a sua imagem é criticada ao mais alto nível (espectadores, comentadores, chefes hierárquicos, colegas) sendo a sua opção mudar de imagem. Fotos suas na praia são divulgadas na imprensa. Se grita, em tribunal, é histérica. Se está saturada de todo o processo é depressiva. Neste 20 anos muito mudou. Uma mulher que trabalhasse por si mesma, há 20 anos, era uma guerreira porque todo o mundo puxava no sentido contrário. Vale a pena ver a pobre Marcia a perder um caso "ganho à partida" muito por ser mulher. Mas vale a pena pensar se hoje, à nossa volta, não existem outros tantos casos assim.

28.3.16




BALADA PARA UMA AMIGA VESTIDA DE TERNURA

(...)

...
Amiga, doce amiga,
a tua voz cria as cidades para mim.
As palavras do poema, comovidas,
Percorrem-te os cabelos,
alimentam
o tecer amoroso dos teus gestos.

Amiga, terna amiga,
as tuas mãos abrem em mim os oceanos.
A sombra os antigos sofrimentos
derrotada se esvai
na incrível luz
do teu sorriso de água e liberdade.

Amiga, meiga amiga,
no verde abrigo dos teus olhos eu descanso.
Quantas árvores se erguem, quantos muros
se abatem, quantos rios
desaguam
na confluência dos nossos olhares!

Amiga, querida amiga,
A ternura que me dás viaja-me no sangue.
Sinto que em ti despertam os jardins
onde acontece a vida
e cresce o ritmo
do grato coração com que te canto.


MÁRIO DOMINGOS, in O DESPERTAR DOS VERBOS (Edium Editores, 2011)

25.3.16




O desafio veio na revista Estante (edição da FNAC). Consta em ler (pelo menos) um livro em cada uma das seguintes categorias:

- Um livro de um autor português - Alentejo Prometido (Henrique Raposo)
- Um livro de uma autora portuguesa
- Um livro publicado há mais de 50 anos - A condição humana (Hannah Arendt)
- Um livro escolhido apenas pela capa (dificílimo)
- Um livro escrito sob pseudónimo (nada fácil)
- O primeiro livro de um autor
- Um livro de não ficção - Polio, an american story
- Uma biografia/ autobiografia
- Uma utopia/ distopia
- Uma novela gráfica
- Um livro infanto-juvenil
- Um livro de contos - Granta Portugal nº1 (EU)
- Um livro adaptado ao cinema
- Um livro adaptado à televisão
- Um livro escrito por um sul-americano - Crónica de uma morte anunciada (Garcia Marquez)
- Um livro escrito por um asiático
- Um livro escrito por um africano
- Mais um livro que em 2015 (ou seja...42 livros!)

Até hoje e consultando o meu Goodreads o panorama é o que se vê em cima. Há alguns livros que repetem categorias e outros que se podem inserir em várias mas assim não tem tanta piada. Vou tentar actualizar a lista de três em três meses.

24.3.16




Parece-me que vivi em segurança o melhor período de uma vida humana, a infância.
Nos idos de 80 e 90 a vida parecia promissora. Com um pouco de trabalho podíamos ter uma casa, família, um trabalho.
Por várias razões isso não se verifica. Nem trabalho, nem casa, nem filhos. Até os casais deixam de juntar os trapinhos porque os empregos precários não deixam. As paredes das casas dos pais, que tanto os abrigaram enquanto novos, são hoje as marcas de uma prisão.
A tudo isto junta-se esta névoa. 
A conquista do ar foi um dos pináculos tecnológicos da humanidade. A possibilidade de acordar hoje em Lisboa e adormecer logo à noite em Moscovo era do reino da fábula. Mas o homem conseguiu. Estas viagens - os aviões - marcavam, também, a abertura global do homem. A sensação de pertencer mesmo a um único mundo. Esta sensação estava muito viva em 2000. Depois veio o que se sabe. A seguir a esta semana já só se viaja por necessidade. Pode ter subjacente um prazer (turismo, visitar família distante) mas aquela entrada no aeroporto e aquela travessia de avião são apenas uma etapa ansiosa para alcançar um fim.
Parece derrotista. É apenas real. 

21.3.16

Isto é kitsh mas também é folklore português




Um viva à Leonor Teles (que aliás deu um belo nome à sua obra)

20.3.16




The impact of a single book

Set my mood



Set my mood



Coisas que gostaria de fazer se não... #1


Ainda não vos disse mas como decidi fazer um doutoramento estou pobre como nunca estive (mas rica em conhecimento e saber e blá blá blá). Adiante. Inauguro assim a secção "Coisas que gostaria de fazer se não...".

Aqui fica a primeira entrada.

Iggy no SBSR

Podia ser sincera e dizer que foi por me reverberar ainda na memória o Trainspotting (ainda este ano corri na mesma Princess Street) mas gostava de o ver também por isto




e por isto



Viva quem não se dá por vencido!





Ter trinta é um bocadinho assim:

ONTEM: "Sexta à noite. Tenho que ir para casa ler os 5000 artigos pendentes. Bolas como eu gostava de ficar numa esplanada a beber umas imperiais e comer tremoços com os amigos"
HOJE (artigos em cima da mesa do café quando começam a chegar remessas de miúdos - estudantes de biologia - que rumaram a Coimbra para um encontro universitário):" Que horror! Assim não dá. Falam aos gritos estéticos e nem sabem estar. Vou para casa que não tenho vida para aturar crianças. Preciso de paz e sossego."
Não sei bem se isto é uma crise da idade, de identidade ou de vontade.

"Podemos recordar 1913 de muitas maneiras. Nesse ano, Apollinaire escreveu um ensaio, “Os Pintores Cubistas, Meditações Estéticas”, que logo nos diz em que alvoroço artístico andava a Europa. Freud publicou “Totem e Tabu”. Era um mundo antigo à procura de sensações novas.
Mas havia uma parvónia cheia de sol. O lugar era Hollywood, mundo novíssimo à procura de sensações antigas. Agarraram num velhíssimo material chamado riso e dor, amor e ódio, medo e coragem, reduziram o material a luz e sombras, muito branco, muito negro. Fecharam esse composto em fitas de nitrato, que meteram em latas. Chamaram-lhe “pictures”, chamamos-lhe agora filmes."

Leiam tudo (que vale a pena) aqui!

19.3.16




De todas as vezes em que bati no fundo da existência, para além dos braços amigos que me ampararam as quedas com actos e palavras, sempre foram os livros que me salvaram. Não faço colecções mas recolho as minhas memórias de vida por entre as páginas dos livros que li. É um género de palimpsesto em que as ruas de Madame Bovary se mesclam com o cheiro característico a verão de um olival em Baleizão. As histórias de Philip Roth misturam a crise da poliomielite (Nemésis) e as areias salgadas da Páscoa algarvia. Ler na praia é ler na esplanada! Quando em casa (demasiado andarilha não me encontro lá sempre) passo os dedos pelas lombadas dobradas e remeto-me automaticamente para uma específica amendoeira em flor cita em Trás-os-Montes sob a qual conheci Jorge Luís Borges. Por vezes quero acreditar que há melhor que isto (um sorriso, um cheiro, um olhar) mas nada fica de modo tão permanente gravado em páginas de histórias do que os contos memorizados da nossa própria vida.

Amanhã há feira de antiguidades em Coimbra. Dia de abastecer pois então!



O que se passa no Brasil é de uma sem vergonha miserável. Isto de existirem pessoas sérias é mesmo uma questão de fé. Eu tenho fé que em dado momento do tempo, em certas circunstâncias benévolas, os indivíduos possam ser sérios. Depois passam 15 minutos e já está de volta à nossa própria distorcida natureza. Não perdi a fé nos Homens mas nas pessoas, individualmente, foi-se com o fim da inocência.

Boy meets girl






Despoletada pela música acima que me arrebatou num daqueles dias em que mais valia não sair da cama e seguindo o caminho que o meu estado amorfo me permitia lembrei-me, aleatoriamente, de duetos gaja-gajo que já me haviam salvo dias inteiros.





27.2.16



Acontece, por vezes, que as minhas decisões vitais são puramente decisões literárias. Porquê ignorar o manual quando tudo já foi descrito?

26.2.16

Set my mood!



Suicídio assistido



Estamos todos cheios de pinças mas o  cerne da questão é este... estivéssemos nós, em casa, a morrer e alguma coisa se arranjava para acabar com o sofrimento. Estando no hospital, como já é costume, perdemos o controlo da nossa situação corporal e nem um ultimo suspiro se pode dar quando se quer.


No meu corpo mando eu! Já tinha dito? 


Isto é só o começo



O que se lê por aí

"Conta-se que os cães que viajam no metro evitam as carruagens apinhadas e preferem as do fundo, habitualmente menos frequentadas. Procuram a companhia dos humanos e resguardam-se dela, como é de esperar dos bichos que conhecem o melhor e o pior desses humanos. Esses vinte cães que atravessam a cidade talvez o façam apenas para procurar comida ou também por diversão e vontade de ver o desconhecido. Exploram o que a cidade tem para oferecer-lhes, o que os humanos construíram, e sobrevivem num mundo que não foi feito para eles, mas que os tolera. Mas quando a vida na cidade se endurece, são eles que guardam as estações, são eles que acompanham e defendem os humanos que dormem nas ruas, são eles que retomam o lugar que nunca perderam por inteiro, o de companheiros e defensores de seres humanos solitários e amedrontados."

25.2.16

A sociedade que não sabe o preço de nada... o que inlui bens físicos, matérias-primas e horas de trabalho


Exemplo: Uma pessoa tem um item de marca à venda no OLX. Perde a cabeça (AKA acha que já não combina nada com a sua vida) e para se livrar dele coloca um preço simbólico de 5 euros. Por cautela avisa que os portes de envio são pagos pelo comprador. Recebe uma mensagem de um comprador interessado: Compro se o preço já incluir os portes!
...
...
...
Há um limite para este tipo de coisa ou não? 

O certo é que quando nasci já Bowie tinha feito tudo o que foi preciso para ser recordado. Fez, no entanto, ainda algo novo, o veículo por que nós o conhecemos (nós os nascidos de 80), Labyrinth. O filme condensa todo o Bowie. O camaleão, obviamente, o criativo e o coração. Um monumento kitsh, eu sei, mas um monumento a Bowie. Ter a capacidade de se subtrair isto de um filme com marretas e duendes/ anões é a marca da virtude.

Depois de um interregno não podia deixar de aqui escrever sobre a notícia que ainda marca 2016. Penso que a melhor coisa que li por essa rede fora foi mesmo uma frase que dizia algo como isto"Não chores um mundo sem Bowie porque isso quer dizer que viveste num mundo com Bowie".

Pois... A realidade é que muita gente pensa no que é que Bowie tem. Tem todo o século XX (música, literatura, arte), o antes de Bowie - absorvido na sua obra -, o durante Bowie - a sua obra - e o pós-Bowie (e neste campo fico expectante embora reconheça, sem por ela ter dado conta até agora, a sua influência em mais gente do que inicialmente notei, como Perfume Genius).

4.1.16

Planos para 2016



Usufruir mais da
Natureza!

Set my Mood



Marcas indeléveis




"Era manifestamente a cidade que atrai a ira, a cidade em perigo constante que, perante as tentações de todo o tipo de grandezas, nunca soube dizer um redondo não que a defendesse do seu próprio destino. As suas cúpulas e as suas torres dão a impressão, de uma maneira indefinível, de fazerem frente a quem quer que seja e, mesmo no modo como estão dispostas nesta planície encapelada, há qualquer coisa de obstinado, de orgulhoso e insubmisso. A cidade, efectivamente, sorri apenas aqueles que se aproximam dela e deambulam pelas suas ruas; a esses, ela fala numa linguagem tranquilizadora e familiar, mas a alma de paris só se revela de longe e do alto."

Julien Green in Paris

28.12.15

Chocalhos, património mundial, esquecidos de Portugal


Há uns anos a  classificação do Fado, e mais tarde do Cante, como património da humanidade foi um dos acontecimentos do ano. Hoje, ao chegar ao fim de 2015, pouco se nota na imprensa escrita ou digital, sobre a importância para o património português da distinção da Arte Chocalheira. Salve-se o Jornal Público e a reportagem sobre o autor da candidatura (aliás presente também nos dossiers do Fado e do Cante).
Este é um silêncio triste mas esperado. O Alentejo não está acostumado a grandes cerimónias ou condecorações. Há alguns eventos, um fim de semana no máximo (Ovibeja, Flores de Campo Maior, Festival Islâmico de Mértola) que vão colocando alguns pontos no mapa mas a cultura, o saber alentejano, que é até fácil de ver, basta andar - passeando pelas suas estradas e aldeias - é um quase desconhecido dos portugueses (até a tão afamada gastronomia é assassinada com artes maléficas em restaurantes citadinos quando os conhecedores sabem que é na tasca da aldeia que melhor se come). Escolhão uma localidade, agarrem numa bicicleta ou apenas caminhem. Vão! Pode ser que oiçam os chocalhos ao lá fundo.



"Esta paisagem foi sacrificada “à agro-indústria e às lógicas que prevalecem sob o argumento da produção alimentar”, critica Paulo Lima, visando a extensão do olival e vinha no Alentejo. “Deixámos de dar atenção a esta coisa tão simples que é cuidar e manter raças autóctones”, prossegue o antropólogo frisando que uma das vertentes que os move nesta candidatura “é o património cultural-genético”. E lembra como a opinião pública se tornou mais sensível à salvaguarda de espécies selvagens, como o lince, o abutre negro, a águia-real, entre outras, mas desconhece que existem raças de ovinos e bovinos quase extintas com apenas poucas centenas de exemplares, como é o caso das ovelhas churra e campaniça ou a raça garvonesa de bovinos.

“Não podemos deixar acabar o património genético, a paisagem sonora baseada na pastorícia”, o universo pecuário que sustentava o fabrico de chocalho que tinha uma função idêntica à que representa nos dias de hoje o GPS, reafirma Paulo Lima, frisando que esta preocupação “calou muito fundo na UNESCO.”"   

Mais, aqui.

26.12.15

Um País que Pensa




Recentemente foi organizado mais um encontro Tedx Lisboa e eu, que desde início me assumi comi fã deste conceito, fiquei surpreendida com a qualidade das talks. Há um País que pensa e uma parte dele está aqui.
Deixo a minha favorita por ser uma realidade que não me é distante.
Quem são estas pessoas invisíveis? 

24.8.15

Set my Mood




...porque nem tudo pode ser amorfo nesta vida...

"A man who spends half a century dedicated to the study of his beautiful city’s rich history, excavating its ancient glories and sharing them with the world in museums and books; a man who, when the storm of violence approaches, works assiduously to hide those priceless artifacts from the monsters who would destroy them or disperse them into the hands of greedy, amoral collectors around the world; a man who then refuses to leave the city even though he knows he will almost certainly be a target of said monsters; a man who, at 82 years of age, sustains a month of God knows what kind of interrogation methods without breaking; a man who gives his life for love of history. That man is the hero."



Um alvo pára na cabeça dos historiadores. Por vezes é um alvo de palavras na forma de injurias. Noutras, como visto recentemente, é um alvo sobre a própria vida. Que fazem estes cientistas que apenas usam a força do raciocínio e da pena?
Eles (a sua maioria) sabem o valor do passado. Conhecem os contextos das revoluções, as razões (que tantas vezes não são as postuladas). São por isso dotados de cinismo porque já viram antes o que se passa hoje.
Há um medo em todos os ditadores, em todos os extremistas, que a verdade se saiba para lá do banho dourado que estes lhe dão. Aqui aplica-se a frase conhecida de  Heinrich Heine: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.", porque o conhecimento da história é uma ameaça, assim como a cultura e o ensino. Pessoas ignorantes é o que se quer para difundir ideias sem pés nem cabeça.
Todo o mundo devia chorar a morte de um homem que apenas procurou conhecer e estudar melhor a Humanidade. Só que esta é mais chica esperta do que justa.

(Reparei entretanto que as revistas e jornais semanais de referência em Portugal não escreveram uma linha, uma reflexão, sobre esta morte... assim sendo a tristeza dobra porque eles estão a ganhar.)

Feedbacks da comunidades podem ser lidos aqui e aqui.

23.8.15






É um céu azul
de nenhuma espessura
arqueado sem detalhe...
ou outra palavra

Entre a colina e as praias
nunca miniaturas de palmeiras
mobilaram assim
os olhos das mulheres.


SEBASTIÃO ALBA, (1940-2000), in O RITMO DO PRESSÁGIO (Edições 70, 1981)

DOMINGO

Foi há 8 anos mas na realidade numa outra vida.
As datas são difusas mas deve ter durado mais ou menos um mês e meio. 
Foi quando vivi no paraíso. Para além das paisagens puras e do ar cristalino que nos entrava pelos pulmões havia toda uma disponibilidade para apreciar sem pressas.
Trabalhava-se durante umas 10 horas. De manhã acordava-nos com a neblina - o lugar é quase cercado por água - e à tarde, sem qualquer peso no corpo, íamos mergulhar na água calma do Azibo.
Durante semanas percorríamos as aldeias mais interiores de um dos mais esquecidos concelhos de Portugal. Para conhecer mais sobre o patrimonio local tínhamos que falar com aqueles velhos e velhas, redutos do século XIX, quase, que nos colocavam na mesa vinho, pão e enchidos. Íamos sempre de barriga vazia para não fazer desfeita.
Nos dias quentes, depois de almoço, cada um seguia com a sua cerveja (menos o condutor claro), vento quente a entrar pela janela, rodas a percorrer estradas desertas.
Como estarão agora esses caminhos e essas gentes? Aquele era o tempo das vacas gordas (ou assim parecia).
Viviamos nestas casas bonitas e confortáveis com direito a refeições. Hoje o projecto mudou de direcção. As casas estão lá, tal como o Azibo, as estradas e, espero eu, as gentes. A gastronomia é do melhor e ali ao lado, depois da fronteira, estão os Picos da Europa. A paisagem mais linda que me foi possibilitado ver.
Agora as casas podem ser vossas pelo tempo que desejarem. Este é um segredo nosso. Vejam aqui e sejam felizes. 

(Não existem fotos. Tirámos muitas e todas se perderam. Há coisas que são mais bonitas lembradas apenas pela memória.)

Afinal para que serve a história?


(Imagem retirada do artigo do Público e parte integrante do Arquivo Leisner; ler o ponto quatro)


Por achar que se desvaloriza em profundidade o estudo do passado e as ciências que o encabeçam vou procurar trazer de tempos a tempos um digest - com fundamento científico - sobre o que veio a lume por esta internet fora sobre algo que deveria interessar a cada um de nós - O Nosso Passado - já que ao estado nem vala a pena falar.

Esta semana:
- Portugueses de hoje seguiram os passos dos de ontem. Depois de uma profunda crise - a crise do século XIV - dominada por fome, guerras e doenças iniciou-se um tipo de migração (aqui leia-se busca de sustento noutras latitudes), a fuga em frente que sempre caracterizou os portugueses. Com um pouco de engenho, sorte e planeamento (as três coisas são possíveis) chegou-se, há 600 anos, a Ceuta. Para ler aqui

- Colegas (e amigos) quase a fazer omeletes sem ovos ou de como uma única falange da mão pode ser fundamental para entendermos quem nos precedeu. Como sempre, no que  à evolução humana diz respeito, são boas notícias da mãe África. Aqui.

- Há um cuidado especial em deixar enterrados certos temas que nos envergonho enquanto povo. A inquisição em Portugal é um deles. Um colega (e mais uma vez, um amigo) agarrou o touro de frente e estudou vários esqueletos de indivíduos vítimas da Inquisição oriundos de Évora. A investigação foi publicada em jornais da especialidade, na Forbes e imagine-se no nosso A Bola que muito me alegrou ver a divulgar a investigação feita em Portugal por jovens cientistas.

- E agora de fora para dentro. Uma reportagem sobre a disponibilização do arquivo dos Leisner. Para muitos um nome desconhecido mas para todos os arqueólogos portugueses uma referência. O casal que se mudou para Portugal e inicou o estudo científico dos monumentos megalíticos funerários portugueses, de uma importância fulcral devido à sua unicidade, pode ser conhecido aqui.  

- Finalmente um artigo de opinião, um pouco mais dentro das questões cientificas, mas que vale a pena ler nem que seja para perceber que em ciência tudo se discute constantemente e são as incertezas e mutações que são saudáveis. Arqueologia e antropologia devem andar ligadas? Aqui.

17.8.15

Como se forma uma pequena intelectual?



Bowie
 + 
Monthy Python 
Muppets 
Mitologia






Hoje vi uma miúda aí com uns 10 anos que era a cara chapada da Rainha de Copas.
Mascava pastilhas de mentol.

11.8.15

terra postal



25 anos de Costa Vicentina sem conhecer Aljezur!
Shame on me.


Já vos contei do senhor Clementine?


Jill Tarter





(E o vídeo, senhores?? 
I love the smell of stardust in the morning!)




~

Primeiro foram os móveis. As malas cheias. A roupa. Os objectos. Algumas memórias. Seguiram-se os novos habitantes. As plantas. Cactos porque nem sempre estou presente. Alguns novos objectos: oferecidos ou comprados em lugares distantes. Trazer o mundo de fora para o interior. as limpezas, o cozinhar e o arrumar também ajudaram. Viver a passagem das quatro estações. Sentir o ar a mudar. Nova roupa de cama, uma manta no sofá, outras receitas. Enchê-la com amor. Habitar em conjunto. Criar rotinas. Usar electrodomésticos. Limpar muito. Partir qualquer coisa. Mudar o tapete da entrada. Arranjar um local para as pantufas e outro para os chapéus de chuva. Viver o espaço. Trabalhar na secretária. Ouvir música na cozinha. Ler na cama.
Mas nada me transformou mais o sentido de lar, nada me aproximou mais da minha casa, do que a ceder a uma amiga, de coração.
É a minha casa por isso pode ser tua.

7.8.15

Escritórios....




Cada um tem o escritório que merece.

Porque é que já não vale a pena levar as meninas ao cinema



A TV ganhou.
Criou personagens de mulheres com tomates.
Interpretadas por actrizes com eles no sítio.
Tal qual a vida real.
Algo que merece ser visto, aqui.


Cover me up!


Tal como quando descobri fuet vou insistir no consumo disto até me fartar.

6.8.15

...aqui também é (um pouco) a minha casa...







Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo

Por vezes   cada objecto   se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"