2.4.16



Trump desiste da corrida presidencial e torna-se júri no So do you think you can dance?. Os atentados dos DAESH terminam para todo o sempre porque se descobre que o petróleo é muito poluente investindo-se em combustíveis  renováveis e quase gratuitos. Lulilma vai em peregrinação a Lhasa onde descobre os ensinamentos de Sidharta. Larga o poder  e altera as suas práticas de modo a fazer meditação pelo menos três vezes por dia e iniciando o nobre caminho octuplo de modo a terminar com o sofrimento e beneficiar de um melhor samsara. Angela vai a Cannes mas escolhe ficar na praia a apanhar Sol. Goucha bane Tininha e apresenta agora um programa literário na Antena 1. Tininha muda-se para os states e é a nova boss do The Apprendice. Emigrantes começam a usar o avião após formação intensiva. O novo Marcelo de Belém arranja um cão.

Terminou a March Madness. Regressaremos à vida real em breve. 



Mandar lixar os dias que parecem escurecer tudo vendo como há coisas tão bonitas a ser feitas pelos homens.
Saved by art.

29.3.16

Set my mood



Onde se disserta sobre a razão porque que todas as filhas dos anos 90 e 00 deviam ver a série do O.J. Simpson


Marcia Rachel Clark, a real e a interprete (Sara Paulson)

Mais do que se é culpa do ou não a série American Crime Story - O.J. Simpson devolve-nos um mundo pré 11 de Setembro. Quando se observa toda a investigação do crime em análise o que nos surge na mente é "como é que só fizeram isto? como é que não viram aquilo?". Uns 10 anos a ver programas como CSI (que estrearam pouco mais de 6 anos depois do caso O.J.) fazem do público melhores inquisidores.
No entanto o que marca mais é o modo como Marcia - a procuradora principal - é tratada. De tão espantava até fui ver se assim era mesmo. Ora acontece que Marcia é inicialmente a personagem que tem a faca e o queijo na mão. A verdade parece estar do seu lado. Mas a sua condição de mulher enfraquece-a. Divorciada e mãe de filhos é confrontada desde logo com o tempo que pode dispensar a uma investigação desta envergadura. Quando não consegue estar com as crianças e se vê obrigada a pedir ajuda ao ex-marido é descrita por este como má mãe. A meio do julgamento a sua imagem é criticada ao mais alto nível (espectadores, comentadores, chefes hierárquicos, colegas) sendo a sua opção mudar de imagem. Fotos suas na praia são divulgadas na imprensa. Se grita, em tribunal, é histérica. Se está saturada de todo o processo é depressiva. Neste 20 anos muito mudou. Uma mulher que trabalhasse por si mesma, há 20 anos, era uma guerreira porque todo o mundo puxava no sentido contrário. Vale a pena ver a pobre Marcia a perder um caso "ganho à partida" muito por ser mulher. Mas vale a pena pensar se hoje, à nossa volta, não existem outros tantos casos assim.

28.3.16




BALADA PARA UMA AMIGA VESTIDA DE TERNURA

(...)

...
Amiga, doce amiga,
a tua voz cria as cidades para mim.
As palavras do poema, comovidas,
Percorrem-te os cabelos,
alimentam
o tecer amoroso dos teus gestos.

Amiga, terna amiga,
as tuas mãos abrem em mim os oceanos.
A sombra os antigos sofrimentos
derrotada se esvai
na incrível luz
do teu sorriso de água e liberdade.

Amiga, meiga amiga,
no verde abrigo dos teus olhos eu descanso.
Quantas árvores se erguem, quantos muros
se abatem, quantos rios
desaguam
na confluência dos nossos olhares!

Amiga, querida amiga,
A ternura que me dás viaja-me no sangue.
Sinto que em ti despertam os jardins
onde acontece a vida
e cresce o ritmo
do grato coração com que te canto.


MÁRIO DOMINGOS, in O DESPERTAR DOS VERBOS (Edium Editores, 2011)

25.3.16




O desafio veio na revista Estante (edição da FNAC). Consta em ler (pelo menos) um livro em cada uma das seguintes categorias:

- Um livro de um autor português - Alentejo Prometido (Henrique Raposo)
- Um livro de uma autora portuguesa
- Um livro publicado há mais de 50 anos - A condição humana (Hannah Arendt)
- Um livro escolhido apenas pela capa (dificílimo)
- Um livro escrito sob pseudónimo (nada fácil)
- O primeiro livro de um autor
- Um livro de não ficção - Polio, an american story
- Uma biografia/ autobiografia
- Uma utopia/ distopia
- Uma novela gráfica
- Um livro infanto-juvenil
- Um livro de contos - Granta Portugal nº1 (EU)
- Um livro adaptado ao cinema
- Um livro adaptado à televisão
- Um livro escrito por um sul-americano - Crónica de uma morte anunciada (Garcia Marquez)
- Um livro escrito por um asiático
- Um livro escrito por um africano
- Mais um livro que em 2015 (ou seja...42 livros!)

Até hoje e consultando o meu Goodreads o panorama é o que se vê em cima. Há alguns livros que repetem categorias e outros que se podem inserir em várias mas assim não tem tanta piada. Vou tentar actualizar a lista de três em três meses.

24.3.16




Parece-me que vivi em segurança o melhor período de uma vida humana, a infância.
Nos idos de 80 e 90 a vida parecia promissora. Com um pouco de trabalho podíamos ter uma casa, família, um trabalho.
Por várias razões isso não se verifica. Nem trabalho, nem casa, nem filhos. Até os casais deixam de juntar os trapinhos porque os empregos precários não deixam. As paredes das casas dos pais, que tanto os abrigaram enquanto novos, são hoje as marcas de uma prisão.
A tudo isto junta-se esta névoa. 
A conquista do ar foi um dos pináculos tecnológicos da humanidade. A possibilidade de acordar hoje em Lisboa e adormecer logo à noite em Moscovo era do reino da fábula. Mas o homem conseguiu. Estas viagens - os aviões - marcavam, também, a abertura global do homem. A sensação de pertencer mesmo a um único mundo. Esta sensação estava muito viva em 2000. Depois veio o que se sabe. A seguir a esta semana já só se viaja por necessidade. Pode ter subjacente um prazer (turismo, visitar família distante) mas aquela entrada no aeroporto e aquela travessia de avião são apenas uma etapa ansiosa para alcançar um fim.
Parece derrotista. É apenas real. 

21.3.16

Isto é kitsh mas também é folklore português




Um viva à Leonor Teles (que aliás deu um belo nome à sua obra)

20.3.16




The impact of a single book

Set my mood



Set my mood



Coisas que gostaria de fazer se não... #1


Ainda não vos disse mas como decidi fazer um doutoramento estou pobre como nunca estive (mas rica em conhecimento e saber e blá blá blá). Adiante. Inauguro assim a secção "Coisas que gostaria de fazer se não...".

Aqui fica a primeira entrada.

Iggy no SBSR

Podia ser sincera e dizer que foi por me reverberar ainda na memória o Trainspotting (ainda este ano corri na mesma Princess Street) mas gostava de o ver também por isto




e por isto



Viva quem não se dá por vencido!





Ter trinta é um bocadinho assim:

ONTEM: "Sexta à noite. Tenho que ir para casa ler os 5000 artigos pendentes. Bolas como eu gostava de ficar numa esplanada a beber umas imperiais e comer tremoços com os amigos"
HOJE (artigos em cima da mesa do café quando começam a chegar remessas de miúdos - estudantes de biologia - que rumaram a Coimbra para um encontro universitário):" Que horror! Assim não dá. Falam aos gritos estéticos e nem sabem estar. Vou para casa que não tenho vida para aturar crianças. Preciso de paz e sossego."
Não sei bem se isto é uma crise da idade, de identidade ou de vontade.

"Podemos recordar 1913 de muitas maneiras. Nesse ano, Apollinaire escreveu um ensaio, “Os Pintores Cubistas, Meditações Estéticas”, que logo nos diz em que alvoroço artístico andava a Europa. Freud publicou “Totem e Tabu”. Era um mundo antigo à procura de sensações novas.
Mas havia uma parvónia cheia de sol. O lugar era Hollywood, mundo novíssimo à procura de sensações antigas. Agarraram num velhíssimo material chamado riso e dor, amor e ódio, medo e coragem, reduziram o material a luz e sombras, muito branco, muito negro. Fecharam esse composto em fitas de nitrato, que meteram em latas. Chamaram-lhe “pictures”, chamamos-lhe agora filmes."

Leiam tudo (que vale a pena) aqui!

19.3.16




De todas as vezes em que bati no fundo da existência, para além dos braços amigos que me ampararam as quedas com actos e palavras, sempre foram os livros que me salvaram. Não faço colecções mas recolho as minhas memórias de vida por entre as páginas dos livros que li. É um género de palimpsesto em que as ruas de Madame Bovary se mesclam com o cheiro característico a verão de um olival em Baleizão. As histórias de Philip Roth misturam a crise da poliomielite (Nemésis) e as areias salgadas da Páscoa algarvia. Ler na praia é ler na esplanada! Quando em casa (demasiado andarilha não me encontro lá sempre) passo os dedos pelas lombadas dobradas e remeto-me automaticamente para uma específica amendoeira em flor cita em Trás-os-Montes sob a qual conheci Jorge Luís Borges. Por vezes quero acreditar que há melhor que isto (um sorriso, um cheiro, um olhar) mas nada fica de modo tão permanente gravado em páginas de histórias do que os contos memorizados da nossa própria vida.

Amanhã há feira de antiguidades em Coimbra. Dia de abastecer pois então!



O que se passa no Brasil é de uma sem vergonha miserável. Isto de existirem pessoas sérias é mesmo uma questão de fé. Eu tenho fé que em dado momento do tempo, em certas circunstâncias benévolas, os indivíduos possam ser sérios. Depois passam 15 minutos e já está de volta à nossa própria distorcida natureza. Não perdi a fé nos Homens mas nas pessoas, individualmente, foi-se com o fim da inocência.

Boy meets girl






Despoletada pela música acima que me arrebatou num daqueles dias em que mais valia não sair da cama e seguindo o caminho que o meu estado amorfo me permitia lembrei-me, aleatoriamente, de duetos gaja-gajo que já me haviam salvo dias inteiros.





27.2.16



Acontece, por vezes, que as minhas decisões vitais são puramente decisões literárias. Porquê ignorar o manual quando tudo já foi descrito?

26.2.16

Set my mood!



Suicídio assistido



Estamos todos cheios de pinças mas o  cerne da questão é este... estivéssemos nós, em casa, a morrer e alguma coisa se arranjava para acabar com o sofrimento. Estando no hospital, como já é costume, perdemos o controlo da nossa situação corporal e nem um ultimo suspiro se pode dar quando se quer.


No meu corpo mando eu! Já tinha dito? 


Isto é só o começo



O que se lê por aí

"Conta-se que os cães que viajam no metro evitam as carruagens apinhadas e preferem as do fundo, habitualmente menos frequentadas. Procuram a companhia dos humanos e resguardam-se dela, como é de esperar dos bichos que conhecem o melhor e o pior desses humanos. Esses vinte cães que atravessam a cidade talvez o façam apenas para procurar comida ou também por diversão e vontade de ver o desconhecido. Exploram o que a cidade tem para oferecer-lhes, o que os humanos construíram, e sobrevivem num mundo que não foi feito para eles, mas que os tolera. Mas quando a vida na cidade se endurece, são eles que guardam as estações, são eles que acompanham e defendem os humanos que dormem nas ruas, são eles que retomam o lugar que nunca perderam por inteiro, o de companheiros e defensores de seres humanos solitários e amedrontados."

25.2.16

A sociedade que não sabe o preço de nada... o que inlui bens físicos, matérias-primas e horas de trabalho


Exemplo: Uma pessoa tem um item de marca à venda no OLX. Perde a cabeça (AKA acha que já não combina nada com a sua vida) e para se livrar dele coloca um preço simbólico de 5 euros. Por cautela avisa que os portes de envio são pagos pelo comprador. Recebe uma mensagem de um comprador interessado: Compro se o preço já incluir os portes!
...
...
...
Há um limite para este tipo de coisa ou não? 

O certo é que quando nasci já Bowie tinha feito tudo o que foi preciso para ser recordado. Fez, no entanto, ainda algo novo, o veículo por que nós o conhecemos (nós os nascidos de 80), Labyrinth. O filme condensa todo o Bowie. O camaleão, obviamente, o criativo e o coração. Um monumento kitsh, eu sei, mas um monumento a Bowie. Ter a capacidade de se subtrair isto de um filme com marretas e duendes/ anões é a marca da virtude.

Depois de um interregno não podia deixar de aqui escrever sobre a notícia que ainda marca 2016. Penso que a melhor coisa que li por essa rede fora foi mesmo uma frase que dizia algo como isto"Não chores um mundo sem Bowie porque isso quer dizer que viveste num mundo com Bowie".

Pois... A realidade é que muita gente pensa no que é que Bowie tem. Tem todo o século XX (música, literatura, arte), o antes de Bowie - absorvido na sua obra -, o durante Bowie - a sua obra - e o pós-Bowie (e neste campo fico expectante embora reconheça, sem por ela ter dado conta até agora, a sua influência em mais gente do que inicialmente notei, como Perfume Genius).

4.1.16

Planos para 2016



Usufruir mais da
Natureza!

Set my Mood



Marcas indeléveis




"Era manifestamente a cidade que atrai a ira, a cidade em perigo constante que, perante as tentações de todo o tipo de grandezas, nunca soube dizer um redondo não que a defendesse do seu próprio destino. As suas cúpulas e as suas torres dão a impressão, de uma maneira indefinível, de fazerem frente a quem quer que seja e, mesmo no modo como estão dispostas nesta planície encapelada, há qualquer coisa de obstinado, de orgulhoso e insubmisso. A cidade, efectivamente, sorri apenas aqueles que se aproximam dela e deambulam pelas suas ruas; a esses, ela fala numa linguagem tranquilizadora e familiar, mas a alma de paris só se revela de longe e do alto."

Julien Green in Paris

28.12.15

Chocalhos, património mundial, esquecidos de Portugal


Há uns anos a  classificação do Fado, e mais tarde do Cante, como património da humanidade foi um dos acontecimentos do ano. Hoje, ao chegar ao fim de 2015, pouco se nota na imprensa escrita ou digital, sobre a importância para o património português da distinção da Arte Chocalheira. Salve-se o Jornal Público e a reportagem sobre o autor da candidatura (aliás presente também nos dossiers do Fado e do Cante).
Este é um silêncio triste mas esperado. O Alentejo não está acostumado a grandes cerimónias ou condecorações. Há alguns eventos, um fim de semana no máximo (Ovibeja, Flores de Campo Maior, Festival Islâmico de Mértola) que vão colocando alguns pontos no mapa mas a cultura, o saber alentejano, que é até fácil de ver, basta andar - passeando pelas suas estradas e aldeias - é um quase desconhecido dos portugueses (até a tão afamada gastronomia é assassinada com artes maléficas em restaurantes citadinos quando os conhecedores sabem que é na tasca da aldeia que melhor se come). Escolhão uma localidade, agarrem numa bicicleta ou apenas caminhem. Vão! Pode ser que oiçam os chocalhos ao lá fundo.



"Esta paisagem foi sacrificada “à agro-indústria e às lógicas que prevalecem sob o argumento da produção alimentar”, critica Paulo Lima, visando a extensão do olival e vinha no Alentejo. “Deixámos de dar atenção a esta coisa tão simples que é cuidar e manter raças autóctones”, prossegue o antropólogo frisando que uma das vertentes que os move nesta candidatura “é o património cultural-genético”. E lembra como a opinião pública se tornou mais sensível à salvaguarda de espécies selvagens, como o lince, o abutre negro, a águia-real, entre outras, mas desconhece que existem raças de ovinos e bovinos quase extintas com apenas poucas centenas de exemplares, como é o caso das ovelhas churra e campaniça ou a raça garvonesa de bovinos.

“Não podemos deixar acabar o património genético, a paisagem sonora baseada na pastorícia”, o universo pecuário que sustentava o fabrico de chocalho que tinha uma função idêntica à que representa nos dias de hoje o GPS, reafirma Paulo Lima, frisando que esta preocupação “calou muito fundo na UNESCO.”"   

Mais, aqui.

26.12.15

Um País que Pensa




Recentemente foi organizado mais um encontro Tedx Lisboa e eu, que desde início me assumi comi fã deste conceito, fiquei surpreendida com a qualidade das talks. Há um País que pensa e uma parte dele está aqui.
Deixo a minha favorita por ser uma realidade que não me é distante.
Quem são estas pessoas invisíveis? 

24.8.15

Set my Mood




...porque nem tudo pode ser amorfo nesta vida...

"A man who spends half a century dedicated to the study of his beautiful city’s rich history, excavating its ancient glories and sharing them with the world in museums and books; a man who, when the storm of violence approaches, works assiduously to hide those priceless artifacts from the monsters who would destroy them or disperse them into the hands of greedy, amoral collectors around the world; a man who then refuses to leave the city even though he knows he will almost certainly be a target of said monsters; a man who, at 82 years of age, sustains a month of God knows what kind of interrogation methods without breaking; a man who gives his life for love of history. That man is the hero."



Um alvo pára na cabeça dos historiadores. Por vezes é um alvo de palavras na forma de injurias. Noutras, como visto recentemente, é um alvo sobre a própria vida. Que fazem estes cientistas que apenas usam a força do raciocínio e da pena?
Eles (a sua maioria) sabem o valor do passado. Conhecem os contextos das revoluções, as razões (que tantas vezes não são as postuladas). São por isso dotados de cinismo porque já viram antes o que se passa hoje.
Há um medo em todos os ditadores, em todos os extremistas, que a verdade se saiba para lá do banho dourado que estes lhe dão. Aqui aplica-se a frase conhecida de  Heinrich Heine: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.", porque o conhecimento da história é uma ameaça, assim como a cultura e o ensino. Pessoas ignorantes é o que se quer para difundir ideias sem pés nem cabeça.
Todo o mundo devia chorar a morte de um homem que apenas procurou conhecer e estudar melhor a Humanidade. Só que esta é mais chica esperta do que justa.

(Reparei entretanto que as revistas e jornais semanais de referência em Portugal não escreveram uma linha, uma reflexão, sobre esta morte... assim sendo a tristeza dobra porque eles estão a ganhar.)

Feedbacks da comunidades podem ser lidos aqui e aqui.

23.8.15






É um céu azul
de nenhuma espessura
arqueado sem detalhe...
ou outra palavra

Entre a colina e as praias
nunca miniaturas de palmeiras
mobilaram assim
os olhos das mulheres.


SEBASTIÃO ALBA, (1940-2000), in O RITMO DO PRESSÁGIO (Edições 70, 1981)

DOMINGO

Foi há 8 anos mas na realidade numa outra vida.
As datas são difusas mas deve ter durado mais ou menos um mês e meio. 
Foi quando vivi no paraíso. Para além das paisagens puras e do ar cristalino que nos entrava pelos pulmões havia toda uma disponibilidade para apreciar sem pressas.
Trabalhava-se durante umas 10 horas. De manhã acordava-nos com a neblina - o lugar é quase cercado por água - e à tarde, sem qualquer peso no corpo, íamos mergulhar na água calma do Azibo.
Durante semanas percorríamos as aldeias mais interiores de um dos mais esquecidos concelhos de Portugal. Para conhecer mais sobre o patrimonio local tínhamos que falar com aqueles velhos e velhas, redutos do século XIX, quase, que nos colocavam na mesa vinho, pão e enchidos. Íamos sempre de barriga vazia para não fazer desfeita.
Nos dias quentes, depois de almoço, cada um seguia com a sua cerveja (menos o condutor claro), vento quente a entrar pela janela, rodas a percorrer estradas desertas.
Como estarão agora esses caminhos e essas gentes? Aquele era o tempo das vacas gordas (ou assim parecia).
Viviamos nestas casas bonitas e confortáveis com direito a refeições. Hoje o projecto mudou de direcção. As casas estão lá, tal como o Azibo, as estradas e, espero eu, as gentes. A gastronomia é do melhor e ali ao lado, depois da fronteira, estão os Picos da Europa. A paisagem mais linda que me foi possibilitado ver.
Agora as casas podem ser vossas pelo tempo que desejarem. Este é um segredo nosso. Vejam aqui e sejam felizes. 

(Não existem fotos. Tirámos muitas e todas se perderam. Há coisas que são mais bonitas lembradas apenas pela memória.)

Afinal para que serve a história?


(Imagem retirada do artigo do Público e parte integrante do Arquivo Leisner; ler o ponto quatro)


Por achar que se desvaloriza em profundidade o estudo do passado e as ciências que o encabeçam vou procurar trazer de tempos a tempos um digest - com fundamento científico - sobre o que veio a lume por esta internet fora sobre algo que deveria interessar a cada um de nós - O Nosso Passado - já que ao estado nem vala a pena falar.

Esta semana:
- Portugueses de hoje seguiram os passos dos de ontem. Depois de uma profunda crise - a crise do século XIV - dominada por fome, guerras e doenças iniciou-se um tipo de migração (aqui leia-se busca de sustento noutras latitudes), a fuga em frente que sempre caracterizou os portugueses. Com um pouco de engenho, sorte e planeamento (as três coisas são possíveis) chegou-se, há 600 anos, a Ceuta. Para ler aqui

- Colegas (e amigos) quase a fazer omeletes sem ovos ou de como uma única falange da mão pode ser fundamental para entendermos quem nos precedeu. Como sempre, no que  à evolução humana diz respeito, são boas notícias da mãe África. Aqui.

- Há um cuidado especial em deixar enterrados certos temas que nos envergonho enquanto povo. A inquisição em Portugal é um deles. Um colega (e mais uma vez, um amigo) agarrou o touro de frente e estudou vários esqueletos de indivíduos vítimas da Inquisição oriundos de Évora. A investigação foi publicada em jornais da especialidade, na Forbes e imagine-se no nosso A Bola que muito me alegrou ver a divulgar a investigação feita em Portugal por jovens cientistas.

- E agora de fora para dentro. Uma reportagem sobre a disponibilização do arquivo dos Leisner. Para muitos um nome desconhecido mas para todos os arqueólogos portugueses uma referência. O casal que se mudou para Portugal e inicou o estudo científico dos monumentos megalíticos funerários portugueses, de uma importância fulcral devido à sua unicidade, pode ser conhecido aqui.  

- Finalmente um artigo de opinião, um pouco mais dentro das questões cientificas, mas que vale a pena ler nem que seja para perceber que em ciência tudo se discute constantemente e são as incertezas e mutações que são saudáveis. Arqueologia e antropologia devem andar ligadas? Aqui.

17.8.15

Como se forma uma pequena intelectual?



Bowie
 + 
Monthy Python 
Muppets 
Mitologia






Hoje vi uma miúda aí com uns 10 anos que era a cara chapada da Rainha de Copas.
Mascava pastilhas de mentol.

11.8.15

terra postal



25 anos de Costa Vicentina sem conhecer Aljezur!
Shame on me.


Já vos contei do senhor Clementine?


Jill Tarter





(E o vídeo, senhores?? 
I love the smell of stardust in the morning!)




~

Primeiro foram os móveis. As malas cheias. A roupa. Os objectos. Algumas memórias. Seguiram-se os novos habitantes. As plantas. Cactos porque nem sempre estou presente. Alguns novos objectos: oferecidos ou comprados em lugares distantes. Trazer o mundo de fora para o interior. as limpezas, o cozinhar e o arrumar também ajudaram. Viver a passagem das quatro estações. Sentir o ar a mudar. Nova roupa de cama, uma manta no sofá, outras receitas. Enchê-la com amor. Habitar em conjunto. Criar rotinas. Usar electrodomésticos. Limpar muito. Partir qualquer coisa. Mudar o tapete da entrada. Arranjar um local para as pantufas e outro para os chapéus de chuva. Viver o espaço. Trabalhar na secretária. Ouvir música na cozinha. Ler na cama.
Mas nada me transformou mais o sentido de lar, nada me aproximou mais da minha casa, do que a ceder a uma amiga, de coração.
É a minha casa por isso pode ser tua.

7.8.15

Escritórios....




Cada um tem o escritório que merece.

Porque é que já não vale a pena levar as meninas ao cinema



A TV ganhou.
Criou personagens de mulheres com tomates.
Interpretadas por actrizes com eles no sítio.
Tal qual a vida real.
Algo que merece ser visto, aqui.


Cover me up!


Tal como quando descobri fuet vou insistir no consumo disto até me fartar.

6.8.15

...aqui também é (um pouco) a minha casa...







Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo

Por vezes   cada objecto   se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

5.8.15

Momento Kepler



O leão Cecil foi morto e há quem se assuma horrorizado com a humanidade. Há também quem refile com os primeiros e lembre que há pessoas a morrer no Mediterrâneo e na Palestina e... (isto é sempre uma pescadinha de rabo na boca ao estilo Chalie Hebdo em que afinal eram todos Charlie mas apenas até lhes pisarem os calos).

O acto com o Leão, a meu ver, revela o pior da Humanidade. Não há volta  a dar. Estamos a pagar milhões de dólares, viajar de avião, andar não sei quantos kms por estradas manhosas, só para matar um animal, que anda na sua vida, sem que seja por uma necessidade maior do que o narcisismo. Porque a caça é isso mesmo. Uma atitude do género: a minha é maior que a tua. 
- Olha apanhei uma perdiz e mais quatro lebres.  
- Ahaha eu apanhei uma mãe javali mais cinco leitões! 

Não diminuindo o que se passa no mundo inteiro (muitos milhões de injustiças e calamidades) nada me parece menos natural do que caçar por desporto.
Há guerras, os chimpanzés também matam, há crises de fome e território em todo o mundo desde o início dos tempos. É uma infelicidade mas é Humano. 
Matar por troféus, criaturas que devíamos admirar, é mais do que lamentável. É bestial (como, feito por bestas)

Vamos então pensar nesse  planeta Kepler e esperar por novos inícios ou fins menos vergonhosos.

Que força é esta?



(e dias são ganhos quando se descobrem coisas assim)

3.8.15


Sou incrivelmente perfeccionista e metódica.
Até que algo corre um milímetro fora do guião que planeei e me torno a mais anárquica das criaturas.

Cover me Up!



Mas que bom este regresso.

Interrupção Voluntária de Gravidez pós-referendo em Portugal not a wonderland




A experiência é pessoal.
Há vários anos acompanhei uma amiga que necessitou de fazer uma interrupção voluntária da gravidez. Estávamos em Trás-os-Montes, a trabalhar, e todo o  processo se desenrolou à minha vista.
Assim que soube que estava grávida e sem possibilidades (razões pessoais muito fortes que apenas a ela pertenciam) para prosseguir tentou primeiro encontrar um nº de ajuda na internet. Assim que falou com os profissionais desse nº foi direccionada para uma consulta de obstetrícia num hospital da Beira Interior. Como não possuía carro e o hospital estava a cerca de 1.30 horas de onde morava fui eu a sua condutora. 
Chegada à obstetrícia do Hospital a minha colega aguardou como qualquer outra paciente regular pela  consulta onde lhe foi explicado o tempo de gravidez e os métodos de interrupção que podiam ser  aplicados. A seguir foi para casa, alguns dias, para ter tempo de reflexão.
Passados dois ou três dias voltou ao mesmo local para tomar a primeira medicação. Foram-lhe também pedidos (ou prescritos) alguns fármacos e produtos para infecções e lavagem uterina.
Uma terceira consulta foi necessária - distando da segunda cerca de 3 dias úteis - para a toma final do medicamento abortivo. Esta toma só aconteceu depois de cerca de uma semana e meia desde a primeira consulta e após 3 viagens e medicação comprada. Devo dizer que desta vez esperámos num corredor ao mesmo tempo que se ouviam os gritos do parto de uma mulher prestes a dar à luz. Das outras vezes foram várias as crianças recém nascidas e grávidas que passaram por nós. Eu, que apenas acompanhava, fiquei terrivelmente afectada por este episódio tendo, por exemplo, tomado a decisão consciente de nunca fazer uma IVG.
Passada uma semana de tratamentos diários, em casa, que implicavam a lavagem do útero pelo menos duas vezes por dia, coisa que não se consegue fazer no local de trabalho, a minha amiga foi ainda a uma consulta final verificar se tudo se tinha processado como devia e se não tinha sequelas.

Este texto serve para demonstrar que nada neste processo é fácil ou oferecido. Há sequelas mentais porque ninguém passa por isto sem pensar duas vezes na sua escolha. E há já um preço monetário muito alto a pagar: medicamento, viagens (foram precisas 8 viagens de 100 km) e dias de trabalho.
Tenham vergonha por abusarem ainda mais destas mulheres. A hipocrisia é demasiada, por exemplo, quando se fala tão tristemente de mulheres vítimas de violência doméstica que se escolherem proceder a uma IVG terão de esconder todos estes procedimentos dos companheiros e agora ainda arranjar mais dinheiro para as taxas moderadoras e desculpas para consultas com psicólogos e assistente social. 


1.8.15




Um  Sábado de Agosto em casa.
O calor expande-se lá fora.
Aqui ouve-se música que me ajuda a atingir o que mais preciso por estes dias... serenidade.

Chaves dicotómicas




Os senhores da segurança social/ centro de emprego sabem tanto da sua arte que mais vale arranjarem um sistema de chaves dicotómicas para se guiarem.Assim pode ser que, por uma vez, duas pessoas prestem a mesma informação e não tenhamos que pedir uma segunda opinião como quem vai fazer um tratamento médico.

29.7.15

Hoje

"When did you last feel loved? Had your forehead kissed, your eyes met… had someone listen to the story of your day – had someone invite you into their brain, their routine, their hometown? When was the last time you felt love move back and forth freely between yourself and someone else without having to qualify it or justify it?
It’s a good thing."

28.7.15





Há fins de tarde nada românticos. Sem melancolia. Fins de tarde que simbolizam fins de dias esconsos. Negros, feios, sem magia. A esperança fica à porta, a ponta do pé ali junto ao umbral à espera do dia seguinte.

27.7.15


Em Beja

Posso estar longe de paredes queridas ou abraços confortantes.
Posso estar longe de uma cama que reconheço e de um espelho que me conhece.
Posso não ter espaço para animais de estimação.
Posso ter que escolher apenas plantas de folha carnuda ou cactos.
Posso lutar por manter rotinas.
Mas tenho sobreiros e abetardas. 
Tenho todos os livros de bibliotecas.
Tenho a novidade.
E os lugares... não há substituto para os lugares que nunca se chega a conhecer.

25.7.15



Uma semana numa aldeia à beira mar. 
Sobrevivi a alpercatas com purpurinas "família real espanhola style", um bombardeamento, vindo de todas as direcções, de gin, a gente que vai para a praia com cadeiras viradas de costas para o mar "só para apanhar um bronze", meninas que só sabem apanhar o cabelo no cucuruto e ao hype dos percebes.
Comi choco frito, calcei chinelos do Kiabi, bebi leite ucal, apanhei o cabelo (imagine-se) num rabo de cavalo, li até me doerem os olhos e deitei-me na toalha de praia a saborear a brisa marinha.
Como todos os arqueólogos, sou old fashioned.

Férias já  se foram e começa agora uma nova etapa.
Um mês e meio mais em Beja. Terminar o trabalho iniciado e rumar ao Centro do país lá para meados de Setembro.
Depois é voltar onde já fui  - por quatro vezes - feliz. E iniciar a investigação que sempre quis fazer.
Quando é por gosto não cansa não é mesmo?
Entretanto arranjar mais 20 000 projectos para ter  income (na carteira e na vida).
E descansar? 
Mudar para mim já é descansar. 
A vida não têm modo de pausa.

24.7.15




Vive-se quando se vive a substância intacta
em estar a ser sua ardente   harmonia
que se expande em clara atmosfera
leve e sem delírio ou talvez delirando
no vértice da frescura onde a imagem treme
um pouco na visão intensa e fluida
E tudo o que se vê é a ondeação
da transparência até aos confins do planeta
E há um momento em que o pensamento repousa
numa sílaba de ouro É a hora leve
do verão a sua correnteza
azul Há um paladar nas veias
e uma lisura de estar nas espáduas do dia
Que respiração tão alta da brisa fluvial!
Afluem energias de uma violência suave
Minúcias musicais sobre um fundo de brancura
A certeza de estar na fluidez animal

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

Et voila, Petit!


Pim!



Pam!

Philippe Petit




Philippe Petit



Pum!


20.7.15